quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

rapariga mulher outra X Bernardine Evaristo


 

O feminismo sempre foi um tema complexo…

“as feministas radicais queriam áreas exclusivas para as mulheres, que constituiriam uma zona autónoma autorregulada

as feministas radicais lésbicas queriam áreas separadas das feministas radicais não lésbicas, as quais constituiriam uma segunda zona autónoma autorregulada

as feministas radicais lésbicas negras queriam o mesmo, com a ressalva adicional de não entrarem lá brancos fossem de que género fossem”

… porque basicamente as mulheres nunca se conseguiram entender.

 

Por continuar a ser um tema tão atual e tão necessário, confesso que fiquei um bocadinho chateada quando percebi que esta crispação feminina estava muito presente no livro, confesso que senti alguma desilusão por muitas das mulheres presentes usarem a sua individualidade carregada de competitividade e ego como o caminho para nunca parar de lutar.

Tal como Carole que esperava ver uma peça “sobre a primeira mulher negra a ser eleita primeira-ministra do Reino Unido, ou a ganhar um Nobel na área da ciência, ou sobre uma mulher negra que tivesse subido a pulso para se tornar bilionária, ou sobre outra qualquer que se pudesse considerar um símbolo de sucesso de mais alto nível conquistado de forma legitima” e que viu uma peça de “guerreiras lésbicas que andam pelo palco feitas machonas e que se apaixonam todas umas pelas outras”… também eu estava à espera, neste livro, de mulheres que apesar de todas as dificuldades não conseguissem olhar o mundo, a vida e os outros, com outros olhos que não fossem a empatia em cada momento…

Convenhamos que essas mulheres (ou qualquer outro ser humano) não existem, convenhamos que não tenho o direito de criticar o caminho que, estas mulheres sofridas, escolheram para conseguirem ter a cabeça fora de água, convenhamos que o livro é tão real e humano tanto quanto a realidade e a humanidade o é.

 

No fim do livro não acompanhei a desilusão de Carole com a peça, fiz as pazes com o livro e consegui ver nele a beleza da diversidade feminina e a inteligência com que muitas perspetivas foram interligadas. Gosto do confronto das novas perspetivas com as antigas:

“ouço falar em feminismo e penso logo em carneirada (…) ser mulher já está fora de moda (…) no futuro vamos ser todos não binários, não vai haver homens nem mulheres, aliás os géneros masculino e feminino são construções sociais, ou seja, (…) o teu feminismo está redundante”

“os privilégios são relativos e contextuais, (…) achas que o Obama [por ser preto] é menos privilegiado do que um parolo americano que cresceu num parque de atrelados filho de uma mãe solteira e toxicodependente e de um pai sempre a ir a vir da prisão? E será uma pessoa com um grau elevado de incapacidade é mais privilegiada do que um sírio que foi torturado e anda à procura de asilo político?”


470 páginas

Elsinore

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Na Terra Somos Brevemente Magníficos ∩ Ocean Vuong



É quando leio livros como este que confirmo, em mim, a certeza do quanto é mais fácil e ao mesmo tempo fascinantemente maravilhoso ser o outro pela leitura. Em livros tão intrinsecamente expostos como este, sentimos a pele, o cheiro, a alegria, a felicidade, a tristeza, a solidão… com toda a real relatividade com que elas aparecem na vida de qualquer um de nós.
 
“O problema é que não quero que me retirem a minha tristeza, tal como não quero que me retirem a minha alegria. São ambas minhas. Fui eu que as fiz, que diabo. E se a euforia que sinto não for apenas um “episódio bipolar”, mas algo pelo qual lutei bastante? Talvez eu comece a saltar e te beije com demasiada força no pescoço quando regresso a casa e descubro que é noite de piza, porque às vezes uma noite de piza é mais do que suficiente, é o meu mais fiel e frágil ponto de referência. E se afinal corro para a rua, porque a Lua nesse dia parece saída de um livro para crianças, pairando, enorme e ridícula, acima da fileira de pinheiros, como se fosse uma estrada esfera medieval?”
 
“Cão pequeno” decide escrever uma carta à mãe, mas a mãe não sabe ler, mas a mãe não sabe inglês… mesmo assim o “Cão pequeno” escreve esta carta, que é este livro, cheia de tudo, e tudo com muita honestidade… a carta não tem só episódios e sentimentos, a carta tem vida em toda a sua essência, tem pessoas em toda a sua complexidade… a carta tem muito amor e um buraco grande e preto no lugar perda…
 
“”Eh”, disse, quase a dormir, “o que eras antes de me conheceres?”
“Acho que era alguém prestes a afogar-se.”
Uma pausa.
“E o que és agora?”, sussurrou, cedendo ainda mais ao sono.
Pensei por instantes. “Água.””
 

 

Relógio de Água
215 páginas 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

O enigma do quarto 622 ∞ Joël Dicker

 


Este é o segundo livro que leio de Joël Dicker (comecei pelo “A verdade sobre o caso Harry Quebert”) e em ambos senti o mesmo. Assim que comecei senti que estava a entrar numa montanha russa desconhecida que me surpreendia em cada curva com emoções fortes. Eu não gosto particularmente de montanhas russas e por isso fazendo o paralelismo poder-se-ia dizer que também não gostei de ler os livros. O único aspeto que me incomodou em todo o processo foi o facto de eu sentir que estava presa naquela cadeira da montanha russa, como se eu não conseguisse sair dali. Mas é claro que conseguia sair, bastava fechar o livro… mas não era possível… os livros foram, para mim, tão absolutamente viciantes, que a opção de fechar o livro foi algo tão absurdo como saltar de uma cadeira de uma montanha russa em andamento… e por esse motivo, tanto o primeiro como o segundo foram lidos em pouco mais que um par de dias.

 
Joël Dicker tem uma criatividade e uma capacidade em entrelaçar histórias acima do que é considerado normal e neste livro, em particular, para além de apresentar um grande mistério, aproveitou também para homenagear o seu falecido editor Bernard de Fallois, sendo ele próprio uma personagem do livro e partilhando algumas das conversas que teve com Bernard.


“Ela rasgou o papel em volta do espesso volume: era um exemplar de E Tudo o Vento Levou.
– Era um dos livros preferidos do Bernard – expliquei-lhe. – Contou-me que o leu durante a guerra, teria uns treze ou catorze anos, e, ao fugir de carro com a mãe e o irmão, foi a ler o E Tudo o Vento Levou no banco traseiro. Corria o boato de que a aviação italiana estaria a bombardear as colunas de civis, e o Bernard, mergulhado na leitura, só desejava que uma explosão não o matasse antes de acabar o livro. Para ele, tratava-se de um grande romance.
– O que é um grande romance? – perguntou Scarlett.
– Segundo Bernard, um «grande romance» é um quadro. Um mundo que se oferece ao leitor, para depois o engolir numa imensa ilusão construída em pinceladas. Se o quadro mostra a chuva, sentimo-nos molhados. Uma paisagem glacial e coberta de neve? Damos por nós a tiritar de frio. E ele dizia: «Sabe o que é um grande escritor? É um pintor, nem mais. No museu dos grandes escritores, do qual os bons livreiros possuem a chave, há milhares de telas à nossa espera. Se lá entrarmos uma vez, nunca mais quereremos sair.»”

 

Alfaguara

610 páginas

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos X Olga Tokarczuk



Tenho um compromisso comigo mesma de tentar ver a realidade da forma mais verdadeira possível. Tento para isso considerar o maior número de variáveis, tento ver as coisas de cima, tento colocar-me em todas as posições…
Funciona???
É claro que não. É claro que a minha verdade não é a realidade, ou pelo menos, toda a realidade. Acredito até, que o próprio processo que estabeleci tolde parte dela…

Este livro fala, também disso, de verdades.
E se a nossa verdade fosse acreditar que os astros nos conduzem e “dominam”?
E se a nossa verdade fosse acreditar que todos os animais deveriam ter direito exatamente a todos os direitos que nós temos?
E se a nossa verdade fosse acreditar que a Ira “faz com que a mente se torne lúcida e aguda”; que toda a sabedoria nasce da Ira?

Talvez cada uma destas verdades seja um bocadinho verdade… talvez umas mais do que outras…

“Sabe, às vezes, tenho a impressão de que vivemos num mundo inventado por nós mesmos. Estabelecemos o que é bom e o que não é, desenhamos mapas de significados… e, depois, passamos a vida inteira a lutar contra aquilo que concebemos. O problema é que cada um tem a sua versão do mundo, e por isso é tão difícil as pessoas entenderem-se”

Mas há uma verdade da qual não abro mão... ler... ler clássicos, modernos, fantástico, biografias... ler melhora a nossa verdade sobre a realidade!!

Cavalo de Ferro
286 páginas

Prémio Nobel de Literatura 2018

domingo, 1 de dezembro de 2019

Cisnes Selvagens ∞ Jung Chang




Nunca vivi numa ditadura e sei que não quero viver. Não quero que me digam por onde tenho que ir, não quero que calem e oprimam o meu lado refilão que é tão grande mas também é tão justo e tão humano. Amo acordar num país onde posso ser aquilo que sou… que embora esteja cheio de defeitos, não me estrangula nem me aprisiona…

Não tenho paciência para pensamentos pequenos e verdades absolutas e até agora todas as ditaduras que conheci (nos livros, nos relatos dos mais velhos, nos filmes…) são exatamente isso. Assentes na ideia de que existem raças superiores a outras, ou na ideia de que somos todos iguais, o resultado final é sempre o mesmo, uma grande concentração de poder num punhado de pessoas e uma completa eliminação de tudo o que é pensamento individual. Porque, para mim, é óbvio de que não existem raças superiores a outras e também é óbvio que não somos todos iguais. Consigo ter a certeza, pelo pouco que sei de cada uma delas que não quero, não quero!!!

A ditadura de Mao foi particularmente agressiva porque foi sempre o povo que se revoltou contra o povo. O polícia era o vizinho do lado, o vizinho da frente, o colega do trabalho, tudo era controlado e escrutinado, as roupas, os olhares, os gestos, as mais pequenas atitudes. Ao longo de toda a ditadura foi sempre preciso encontrar o inimigo infiltrado, o que deu azo a milhões de bodes expiatórios e vinganças pessoais.
A mediocridade e a ignorância eram celebradas, os livros foram queimados, os professores espancados e tudo o que era cultura passou a ter o selo burguês e capitalista. As escolas estiveram fechadas por anos e muito do património arquitetónico Chinês foi destruído.

O endeusamento de Mao foi tão completo e profundo que muitos dos chineses, mesmo depois de serem torturados, não conseguiam ver o quanto era ele que estava errado. A escritora deu, e muito bem, destaque ao seu processo de consciência e reconhecimento da responsabilidade de Mao.

“Eu e os meus amigos falávamos muitas vezes a respeito do Ocidente. Por essa altura, tinha chegado à conclusão de que devia ser um lugar maravilhoso. Paradoxalmente, as primeiras pessoas que me meteram esta ideia na cabeça foram Mao e o seu regime. Durante anos, todas as coisas para as quais eu me sentia naturalmente inclinada tinham sido condenadas como males do Ocidente: roupas bonitas, flores, livros, diversões, delicadeza, boa educação, espontaneidade, misericórdia, bondade, liberdade, aversão à crueldade e à violência, amor em vez de «ódio de classe», respeito pela vida humana, a vontade de estar sozinha, a competência profissional…”

Esta visão romântica e irreal do Ocidente, da Europa, continua hoje em dia a chamar e a trazer muitas pessoas para cá. Mas... talvez não seja tão romântica ou irreal assim e talvez devêssemos olhar para ela com orgulho e com vontade de a manter.

Quetzal
517 páginas

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Kafka e la Muñeca Viajera ֍ Jordi Sierra i Fabra

Algum tempo antes de morrer Franz Kafka encontrou, num parque, uma menina a chorar por ter perdido a sua boneca. Sem qualquer outra explicação, que não fosse evitar tamanho sofrimento, Kafka decide assumir o papel de carteiro de bonecas e durante três semanas traz todos os dias uma carta diferente da boneca, dirigida à sua antiga dona, a contar as suas novas aventuras em diferentes lugares do mundo.

Esta história é verdadeira, mas “El nombre de la niña que perdió la muñeca nunca se ha sabido, y las cartas que le escribió él durante tres semanas nunca han sido leídas por ninguna otra persona ni encontradas.”, e por isso, Jordi Fabra assume esse compromisso: “Por mi parte, me he permitido la transgresión: inventar esas cartas, terminar la historia, darle un final imaginario. Pudo ser este u otro cualquiera, y no creo que importe demasiado. Lo sucedido es tan bello en sí mismo que el resto carece de importancia. Lo único evidente es que aquellas cartas debieron de ser mucho mejores y más lúcidas que las recreadas por mí.”.

Talvez nunca saberemos se as “verdadeiras” cartas eram melhores que as que constam neste livro, talvez nunca saberemos se a criança seria descrita por Kafka da mesma forma que Jordi o fez, mas efetivamente a história, por ser tão sincera e tão profundamente confortante merecia ser contada.
Quanto a mim, depois de ler livro, fico com uma sensação impregnada no meu ser de que se quisermos, se estivermos dispostos a dar de nós, poderemos trazer um bocadinho de calor e luz ao pequeno mundo que nos rodeia.

«Elsi, has de saber que vivir representa ir siempre hacia delante, aprovechar cada momento, cada oportunidad y cada necesidad. Tú también lo harás dentro de unos años. Las personas y las muñecas estamos hechas de sentimientos y emociones que hay que ir gastando poco a poco. Son nuestra energía vital. Después de estos años a tu lado, soy la muñeca más feliz que existe, porque mi energía rebosa. Quiero que estés contenta, y mucho, porque todo cuanto soy te lo debo a ti. Tú me has cuidado, me has enseñado, me has querido y me has hecho ser una buena muñeca. Ahora, cuando he estado preparada para iniciar mi nueva vida, la partida ha sido triste por dejarte pero hermosa porque gracias a ti soy libre para hacerlo.»

segunda-feira, 4 de março de 2019

A Ilha ∾ Victoria Hislop



A Ilha é um local onde os leprosos vivem, é para lá que vão quando mostram sintomas da doença. Abandonam maridos, esposas, filhos, filhas, amigos, casas, vidas para serem exilados nesta pequena ilha árida e pedregosa tão vulnerável aos caprichos da natureza.
O que mais me impressionou neste livro foi a decisão e capacidade da autora de tornar este local organizado, pacífico, habitável, quase confortável. Achei maravilhosa esta visão tão positiva e digna da humanidade perante uma situação tão dramática como uma doença mortal e contagiosa. Não consegui deixar de comparar com o mundo apresentado por Saramago no “Ensaio sobre a cegueira”… e a verdade é que o ser humano tem esses dois lados: a luz com a solidariedade, o companheirismo, a empatia e o amor; e as trevas com a inveja, o ódio, o egoísmo e o medo.
Mas a ilha grega de Spinalonga, que neste livro é o mais importante cenário na vida da família Petrakis, existe e existiu enquanto colónia de leprosos entre 1903 e 1962. Parece que ao longo deste período da sua história foi um bocadinho dos dois mundos, o do Saramago no “Ensaio sobre a cegueira” e da Victoria Hislop n’”A ilha”. Parece que esta evolução positiva se deveu à chegada à ilha de pessoas com alguma cultura e com uma visão de sociedade e não só individual. Parece que a chegada destas pessoas fez toda a diferença… Talvez seja uma boa estratégia procurar este tipo de pessoas em cada uma das nossas ilhas.
“A saída de Maria da escuridão do túnel para o novo mundo foi uma grande surpresa para ela, tal como para qualquer recém-chegado. Apesar das cartas da mãe, que estavam cheias de descrições e de colorido, nada a tinha preparado para aquilo que ela agora via. Uma longa estrada com uma fila de lojas, todas com portadas recentemente pintadas, casas com floreiras à janela e vasos cheios de gerânios de floração tardia, e uma ou duas casas mais imponentes com balcões de madeira torneada. Apesar de ainda ser demasiado cedo para as pessoas estarem a pé, havia um madrugador. O padeiro. A fragância do pão e dos bolos acabados de cozer enchiam a rua.”

408 páginas
Civilização Editora

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

O filho de mil homens ꙮ Valter Hugo Mãe


Valter Hugo Mãe escreve poesia em forma de prosa. Para mim é um absoluto prazer lê-lo, é uma mistura entre um embalo doce de um poema e o mergulho profundo nas emoções que nos preenchem sejam elas boas ou más.
Arrisco-me a dizer que Mãe gosta de lugares pequenos, gosta de observar as ligações que se estabelecem em lugares pequenos em que toda a gente se conhece, gosta de entender em que sentimentos, valores e princípios assentam tais ligações. Para mim, a sua visão que deixa nos seus romances, é crua e absolutamente realista… chega a magoar… mas é descrita de uma forma doce, tão bela, que não deixamos de sentir a luz.
Não é raro, nesses lugares pequenos, as relações serem assentes em padrões de igualdade (igualdade, não normalidade), onde temos que fazer tudo igual, onde temos que sentir tudo igual, onde temos que seguir o mesmo caminho dos outros. Ousar fazer algo diferente, sentir algo diferente, seguir um caminho diferente… não é só diferente… é mau… é errado. Discussão tão antiga esta, onde estão os limites do que é certo e errado? não estão definitivamente no mesmo sítio dos limites do igual e do diferente…
E o ser diferente neste livro passa por se gostar de pessoas do mesmo sexo (assunto que nos inunda hoje em dia), mas passa também (e acho isso maravilhoso) por se continuar a sonhar, independentemente do tamanho dos sonhos, e correr em busca deles contra todos os velhos do restelo que vamos encontrando, passa também por não nos acharmos uns coitadinhos e estarmos bem connosco, mesmo que aos olhos da “nossa gente” nos devêssemos sentir uns coitadinhos porque somos pobres, sozinhos, deficientes…
A minha representação de amor preferida de todos os livros que li, sempre foi a história do Baltazar e da Blimunda, no Memorial do Convento, de José Saramago. Arrisco-me a dizer que a história do Crisóstomo e da Isaura, está lá… está quase lá…
Eu recomendo sempre a leitura, mas recomendo a leitura deste livro, porque é humano, cheio de coisas simples, que todos entendem, todos sentem…

“O homem que chegou aos quarenta anos pescava, cozinhava para si os peixes com paciência e cuidado, sentava-se à mesa a ouvir quem ia estender-se ao sol ou jogar bola ali ao pé do mar. Ouvia aquela companhia, que era uma réstia de companhia ou companhia nenhuma, e comia os seus peixes a pensar que tinha de haver uma solução.
Decidiu que sairia à rua dizendo às pessoas que era um pai à procura de um filho. Queria saber se alguém conhecia uma criança sozinha. Dizia às pessoas que vivia no bairro dos pescadores, porque era um pescador, e dizia que os amores lhe tinham falhado, mas que os amores não destruíam o futuro. Pensava o Crisóstomo que algures na pequena vila haveria alguém à sua espera como se fosse verdadeiramente a metade de tudo o que lhe faltava. E muito pouco lhe importava o disparate, tinha nada de vergonha e sonhava tão grande que cada impedimento era apenas um pequeno atraso, nunca a desistência ou a aceitação da loucura.
Pensava que quando se sonha tão grande a realidade aprende”

272 páginas
Porto Editora






sexta-feira, 10 de agosto de 2018

O Triunfo dos Porcos & George Orwell



É fácil perceber que este livro é uma alegoria que, ao apresentar uma revolução dos animais da quinta à ditadura implementada pelos humanos, mais do que crítica, descreve de forma bem real e crua, o sistema a União Soviética comunista…
Mas vai também mais longe e pode ser aplicado em tantos outros contextos. Sejamos realistas, também a democracia nasceu com a verdade de que “todos os animais são iguais” e neste momento “todos os animais são iguais mas alguns animais são mais iguais de que os outros”.
O problema não é o comunismo ou a democracia, o problema é aquilo que o homem faz com isso ao longo do tempo. O ser humano é dado ao ócio e à preguiça quando o pode ser. Cada ser humano usa umas lentes únicas para ver o mundo e tentar colocar as lentes de outra pessoa dá trabalho, dá muito trabalho. E o verdadeiro problema é que, para além do trabalho que dá, na maioria dos casos ainda prejudica o nosso conforto – o nosso conforto material e o nosso conforto chamado consciência.
Como é que vamos conseguir manter na nossa cabeça as meias verdades que justificam e nos fazem acreditar que temos o direito de ter ordenados de milhões de euros, garagens com mais de trinta carros, mais de dez mansões espelhadas pelo mundo, fronteiras fechadas, escravos sexuais e/ou infantis… se usarmos as lentes dos outros (uma capacidade fantástica que o ser humano possuí e a que se dá o nome de empatia) para ver o mundo?
Se cada um de nós fizer um esforço para ver o mundo pelos olhos dos que estão abaixo de nós socialmente/economicamente e/ou em situação vulnerável o principal problema vai ser nosso… porque isso vai mexer com o conforto, com o nosso conforto, muito nosso. E quanto mais alto estivermos mais teremos que abdicar mas a boa notícia é que também podemos fazer mais pelos outros.
Para mim a frase “todos os animais são iguais mas alguns animais são mais iguais de que os outros” está mal deste o início. “Não, nós não somos todos iguais, mas somos todos pessoas” e temos os mesmos sentimentos, os bons, os maus, todos intensos, e precisamos todos do mesmo, de muito pouco.
“Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Amanhecer com mostro marinho ≈ Neil Jordan


Somos seres complexos e temos fios imaginários que nos ligam uns aos outros… Não gosto de ter uma visão racional e pragmática sobre tudo e por isso faço por sentir que o que liga os pais aos filhos e os filhos aos pais são fios imaginários… Porque por vezes são pessoas tão diferentes, com sensibilidades, prioridades e visões tão distintas que só alguns fios imaginários as manteriam por perto.

Neste livro são linhas nocturnas, fios delgados de tripas estendidos entre duas canas metálicas intermitentemente pontilhadas de anzóis, que se enterram vazias na maré vazia e se recolhem, talvez cheias, na maré vazia seguinte, que ligam um pai e um filho. O pai e o filho encontram-se e desencontram-se ao longo da sua história, deixando cada um deles no outro, marcas fortes e infelizmente neste caso irreversíveis.

A presença de uma bonita professora de piano e também de várias guerras (a segunda mundial, as civis de Irlanda e de Espanha) são pretextos para sermos envolvidos numa sensação de humanidade na traição. Mas é uma Irlanda cheia de água que preenche o cenário. É uma Irlanda fustigada pelo mar e pelas tempestades que nos faz mergulhar numa sensação de normalidade na roupa molhada colada ao corpo. No fim, é o mar que com o seu silêncio preenche todos os silêncios e com a sua força traz a paz.

“Quis então exorcizá-lo de uma vez por todas, pô-lo finalmente a descansar e dirigi-me à casa, abri a porta da cave por baixo das escadas e encontrei as canas metálicas, agora a enferrujarem-se, dobradas num círculo no cimo das velhas tripas ainda presas a elas. As linhas tinham desbotado, estavam verdes em alguns pontos, âmbar noutros, e os velhos anzóis embotados ainda pendiam delas. Envolvi-os com uma mão, peguei numa pá de carvão com a outra, saí e desci os degraus até à areia e comecei a andar. Caminhei em direcção à linha prateada que era a maré, mas não a cheguei a encontrar.”

215 páginas
Cavalo de Ferro

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

três homens num barco → Jerome K. Jerome






Uma celebração à mediocridade, à ausência de autocrítica e à ausência de empatia que só se torna suportável e até divertida porque se conclui (espero que não erradamente) que tudo é uma ironia.

A incapacidade de autoanálise e auto culpa em George, Harry e Jerome em todas as experiências que lhes correm mal é uma oportunidade de reflexão para nós… leitores.

Será que depois de lermos a mesma experiência relatada, pela mesma pessoa das duas perspetivas o mais opostas possíveis, de forma arrogante e cheia de razão, somos capazes de admitir que somos também capazes de o fazer?
Será que depois de lermos a validação de se ser snobe através da utilização da moral, dos bons costumes e das caraterísticas estereotipadas dos restantes grupos sociais, sentimos que é errado fazê-lo?

Pelo menos parece-me difícil não notar que este desafio está presente no livro.

Mas… talvez esteja a fazer uma análise demasiado séria de uma história recheada de episódios mirabolantes que nos arrancam muitos sorrisos e algumas gargalhadas… Só por isso já vale a pena lê-la.

Escolhi um excerto que não me agrada particularmente… e escolhi-o exatamente por isso!!

“De todas as aventuras ligadas à sirga, a mais excitante é ser-se rebocado por raparigas. É uma sensação que ninguém deve perder. São sempre necessárias três raparigas para sirgar; duas seguram no cabo e a terceira corra às voltas a dar risadinhas. Geralmente, começam por enrolar o cabo. Ficam com a corda enrolada nas pernas e têm de se sentar no caminho para se desenrolarem umas às outras, e depois embrulham-se nela praticamente até ao pescoço e quase são estranguladas. Finalmente lá conseguem esticar a sirga e começam a puxar o barco, como se fosse uma corrida, a uma velocidade deveras perigosa. Claro que ao fim de uns cem metros estão sem fôlego, param de repente, e sentam-se na relva a rir à gargalhada. Enquanto isso, o barco escapa-se e volta à deriva para o meio da corrente e dá uma volta, antes de termos tempo de perceber o que é que aconteceu ou de pegarmos num remo. E aí elas levantam-se com um ar surpreendido.”

224 páginas
Alma dos livros

domingo, 13 de agosto de 2017

O Ministério da Felicidade Suprema * Arundhati Roy




Gosto de pessoas que dizem o que têm a dizer, no momento certo, de forma assertiva, sem mascarar a realidade, Arundhati Roy é assim. Admiro pessoas com personalidades fortes, com convicções e visões do mundo bem definidas assentes numa ausência de etnocentrismo e numa sensibilidade humana e global sobre a vida no nosso planeta, Arundhati Roy é assim. É frequente estas pessoas trazerem desconforto, porque simplesmente colocam o dedo na ferida e não deixam as consciências adormecerem, Arundhati Roy é assim. São pessoas que não levantam bandeiras por opção, mas “Porque sou uma árvore. Não posso ser transplantada. As minhas raízes são profundas e eu pertenço ao meu país. Sentiria saudades das outras árvores se me fosse embora. Faço parte daquele clima, daquele solo, e não sei porque haveria de o deixar. Eles que o deixem. Eles que se vão embora.”*

Arundhati Roy afirma que o que se passa no mundo não pode ficar fora da Literatura*… também ela não pode ficar fora dos seus livros…

“A que casta pertenço? É essa a vossa pergunta? Com uma agenda política tão grande como a minha, digam-me, a que casta deveria pertencer? De que casta eram Jesus e Gautam Buddh? De que casta era Marx? De que casta era o profeta Maomé? Só os hindus têm estas castas, esta desigualdade incluída nas suas escrituras. Sou tudo exceto hindu. Como Azad Bhartiya, posso dizer abertamente que renunciei à fé da maioria do povo deste país, exclusivamente por este motivo. Devido a isso, a minha família não fala comigo.”

“Ela não se parecia com nenhuma das raparigas pálidas e bem arranjadas que eu conhecia (…) Ela tinha um rosto pequeno, de ossos delicados, e um nariz direito, com narinas atrevidas e abertas. O cabelo comprido não era liso nem encaracolado, mas revolto e pouco cuidado. (…) Não era alta, mas tinha pernas compridas e uma postura, com o peso apoiado na parte da frente dos pés e os ombros direitos, que era quase masculina, mas ao mesmo tempo não era. (…) A ausência total do desejo de agradar, ou de por alguém à vontade, podia, numa pessoa menos vulnerável, ser vista como arrogância. Nela, dava uma impressão de solidão indiferente. Por trás dos óculos simples, nada modernos, os olhos de gato ligeiramente inclinados tinham o secretismo despreocupado de um pirómano. Ela dava a impressão de se ter escapado de uma trela. Como se estivesse a passear sozinha enquanto nós éramos passeados – como animais de estimação.”

Para mim estes fragmentos (e mais alguns), que pertencem a personagens diferentes definem-na e por isso seria impossível falar do livro sem antes falar da escritora.

Mas o livro…. é uma simples e perpétua obra de arte…

Não é surpreendente que, para retratar a Índia dos nossos dias, duas das personagens principais sejam um transexual e um militante de Caxemira, mas desenganem-se aqueles que julguem que o que vão ler é a vitimização destes excluídos. O livro é acima de tudo uma mensagem de força e de dignidade.

Anjum… [que ao contrário das pessoas que não são como ele - cuja infelicidade é causada pelo “aumento dos preços, as propinas da escola dos filhos, os maus-tratos dos maridos, a traição das mulheres, os motins hindu-mulçumanos, a guerra indo-paquistanesa… coisas exteriores, que acabam por se resolver.” - tem o motim dentro dele, a guerra está dentro dele, nunca se resolverá, é impossível]

…e Musa… [que afirma: “- Sabes o que é mais difícil, para nós? O que é mais difícil de combater? A pena. É tão fácil termos pena de nós próprios… aconteceram coisas tão terríveis ao nosso povo… aconteceram coisas terríveis em todas as casas. Mas a autocomiseração é tão… tão debilitante. Tão humilhante. Mais do que a Azadi, esta é agora uma luta por dignidade. E a única forma de mantermos a dignidade é lutar também. Mesmo que percamos. Mesmo que morramos. Mas, para isso, nós, enquanto povo… enquanto pessoas vulgares… temos de nos tornar um a força de combate… um exército. Para fazer isso temos de nos simplificar, de nos padronizar, de nos reduzir… toda a gente tem de pensar da mesma maneira, de querer o mesmo… temos de nos livrar das nossas complexidades, das nossas diferenças, dos nossos absurdos, das nossas nuances… temos de nos tornar tão tenazes… tão monolíticos… tão estúpidos… como o exército que enfrentamos. Mas eles são profissionais, nós somos apenas pessoas. Esta é a parte pior da Ocupação… o que nos obriga a fazer a nós próprios. Esta redução, esta padronização, esta estupidificação… (…) esta idiotização… se e quando a alcançarmos, será a nossa salvação. Tornar-nos-á invencíveis. Primeiro será a nossa salvação, e depois… depois de vencermos… será a nossa némesis. Primeiro Azadi. Depois aniquilação. O padrão é esse.”]

…mostram que “Depois de cairmos da face da Terra (…) nunca mais paramos de cair. E, enquanto caímos, agarramo-nos a outras pessoas em queda. Quanto mais cedo o compreenderes, melhor. Este lugar onde vivemos, onde construímos o nosso lar, é o sítio das pessoas em queda. Aqui não há haqeeqat. Arre, nem nós somos reais. Não existimos realmente.”…

… mas também mostram que “há felicidade nos lugares mais estranhos e inesperados. E, por mais frágil que seja, tem a sua integridade”*…

… e que por isso “temos de redefinir ou mudar a receita de felicidade que nos têm tentado impingir. Repensar o que há de verdadeiro quando nos dizem «isto é progresso», «isto é civilização», «isto é felicidade» ou «isto é família» - e isso requer muita coragem.”*



463 páginas
Asa

*Arundhati Roy em entrevista à Revista E do Expresso na edição de 5 de agosto de 2017

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Norwegian Wood ₼ Haruki Murakami



A capacidade de nos conectarmos com pessoas que acabamos de conhecer de uma forma única e profunda que nos conforta e aquece o ser que somos e ao mesmo tempo a frequência com que olhamos para os que diariamente nos rodeiam e nos sentimos um ser estranho, deslocado, exterior…. como se o lugar ao sol não fosse só um lugar fosse também uma companhia.
Mais do que um contador de histórias, Haruki Murakami é um contador de pessoas (já o disse antes) e tem uma tão grande capacidade e coragem de escrever pessoas tão banais, tão reais, tão cheias de fragmentos de nós, que quando mergulha dentro delas, é dentro de nós que ele mergulha.
Perder amigos porque decidem por termo à vida, perder familiares porque foram consumidos por uma doença, perder um sonho porque temos uma lesão… a melancolia e o vazio da incerteza que acompanha as suas personagens obriga-nos a vivê-las de uma forma natural e permanente porque são acima de tudo parte de nós.
Não há juízos de valor sobre qual o melhor caminho a seguir, não há pessoas completamente cheias de razão sobre tudo, mas existe aquela sensação de um leve empurrão para a frente para seguires o caminho, o TEU caminho.

“O pirilampo esvoaçou para o ar bastante tempo depois, como se tivesse ocorrido de repente. Abriu as asas e voou rapidamente por cima do corrimão até flutuar na palidez da escuridão. Delineou um célere arco ao lado do depósito de água, como se tentasse recuperar um intervalo de tempo perdido. Por fim, após pairar durante uns escassos segundos como se observasse a linha curvada da sua própria luz a fundir-se com o vento, esvoaçou para leste.
O rasto da sua luz permaneceu dentro de mim bastante tempo depois de o pirilampo ter desaparecido e essa sua pálida e ténue luminosidade continuava a pairar como uma alma perdida na espessa escuridão por trás das minhas pálpebras.
Tentei várias vezes estender a mão na escuridão, mas os meus dedos não tocavam em nada. O ténue brilho perdurava, mas estava para além do meu alcance.”

“«A morte existe, não como o contrário da vida mas como parte dela». Nutrimos a morte enquanto vivemos as nossas vidas. Por verdadeiro que isto fosse, era apenas uma das verdades que tínhamos de aprender.”

“-Não sintas penas de ti próprio. Somente as idiotas agem assim.”

350 páginas
Civilização Editora