quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

O Som e a Fúria # William Faulkner

 


O primeiro livro que li de Mário Vargas Llosa foi "Conversa n'A Catedral" e fiquei rendida aquela confusão de pensamentos e diálogos e memórias, tão real numa conversa entre duas pessoas que não se veem há muito.

Só mais tarde soube da influência de William Faulkner e só agora li "O Som e Fúria" e mais uma vez volto a Vargas Llosa para falar sobre o livro:

 "Cresci num mundo marcado por essa idéia completamente ingênua de que se você tem um bom tema, se uma história é original o romance já está 90% garantido. Lendo Faulkner, você se dá conta de que todos os temas são bons ou maus, que não depende do tema, e sim de seu tratamento, do que você faz com ele. Da linguagem com que você conta a história, da maneira como a conta e, sobretudo, do tempo. Você vê a importância decisiva da narrativa."*

Faulkner não apresenta apenas a mesma família de quatro perspetivas diferentes. Em cada uma das três primeiras partes a narrativa é construída com todos os sentidos do narrador, acompanhando a intensidade e complexidade de cada um... é inteligente, é brilhante....


" Ben parou de gemer. Observava a colher enquanto ela subia até à sua boca. Era como se nele até a ansiedade fosse muscular e a fome inexpressiva, sem que ele soubesse que era fome. Luster dava-lhe de comer com perícia e indiferença. De vez em quando a atenção voltava por tempo suficiente para lhe permitir fazer uma finta com a colher e obrigar Ben a fechar a boca em falso, mas era evidente que Luster estava com a cabeça muito longe. Tinha a mão livre pousada nas costas da cadeira e os dedos tamborilavam tentativamente, suavemente, sobre a superfície inerte, como se do vazio se elevasse uma música inaudível, e uma vez chegou mesmo a esquecer-se de fazer negaças a Ben com a colher, enquanto os seus dedos faziam negaças na madeira arrancando um arpejo mudo e arrebatado, até Ben lhe chamar a atenção pondo-se de novo a choramingar. "


Leya - Livros RTP


*Mário Vargas Llosa em entrevista ao "El País", publicado na Folha de São Paulo a 24 de Abril de 1995 (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/4/24/ilustrada/26.html) 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Entre Dois Reinos # Suleika Jaouad

A vida pode ser maravilhosa, cheia de pessoas boas que a preenchem com carinho e amor e nos fazem manter o brilho nos olhos, cheia de bons dias de sol, piquenines em jardins e mergulhos no mar... MAS... também pode ser assustadora e um lugar mau, pode ter consecutivos pequenos acidentes que nos vão consumindo a energia ou catástrofes momentâneas que nos marcam para sempre.

A vida é feita de tudo isto e eu tenho tentado aprender a agarrar-me aos momentos de luz, a estar verdadeiramente neles, a aproveitar cada respirar. Descobri que gosto de viagens onde o caminho já é a viagem, pode ser uma peregrinação a São Bento, uma ida de bicicleta a Santiago, uma qualquer road trip. A sensação de me saber em movimento para um destino/objetivo definido e concreto contrasta com a infinita incerteza e ausência de controlo da vida e, por isso, sinto paz.

Foi tudo isto (e muito mais) que eu reencontrei neste livro sincero e corajoso.

Suleika esteve doente, está doente, e sim, a vida é absolutamente injusta e há caminhos mais difíceis que outros. Desejo profundamente que continue a viver por muitos anos e em cada momento, até naqueles em que está quase exclusivamente a lutar.

Lua de Papel