segunda-feira, 15 de agosto de 2022

Os Livros que Devoraram o Meu Pai {} Afonso Cruz




A Ilha do Dr.  Moreau -  H. G. Wells

A Ilha do Tesouro / O Estranho Caso do Dr. Jekyll e de Mr. Hyde -  Louis Stevenson

Divina Comédia -  Dante Alighieri

O Triunfo dos Porcos -  George Orwell

A Mãe -  Gorki

Crime e Castigo -  Fiódor Dostoiévski

...  -  Cyrano de Bergerac

O Nariz -  Gogol

A Servidão Humana -  Sommerset Maugham

...  -  Herberto Helder

Fahrenheit 451 -  Ray Bradbury

Planilândia -  Edwin A. Abbott


126 páginas 

Caminho



terça-feira, 26 de julho de 2022

Desgraça <> J. M. Coetzec


O título é autoexplicativo mas não é uma ou várias desgraças simples, são momentos cheios de camadas, camadas espessas profundas e feitas de história. 

É claro que podemos sempre tentar perceber o quanto somos, ou não somos, responsáveis pelas possíveis desgraças que nos vão acontecendo, algumas são previsíveis, outras poderão ocorrer ou não, algumas temos zero responsabilidade nelas... mas independentemente disso tudo, uma desgraça é uma desgraça.

Também podemos discutir como lidar ou reagir a uma desgraça, de quanto tempo o nosso corpo precisa para voltar a ter alegria, qual o equilíbrio entre aceitar a dor e a tristeza e ao mesmo tempo ir forçando a vida... independentemente disso tudo a desgraça deixa marcas eternas.

Não me consegui identificar com as personagens principais do livro, nem com o pai nem com a filha. Consegui partilhar sentimentos, tenho a pretensão de achar que consegui ser empática com a dor e mesmo com as opções tomadas, mas não me identifico com elas e tenho a certeza de que se a Lucy fosse minha amiga eu lhe "gritaria" todos os dias: NAAAAAOOOOO, IR POR AÍ NÃO É UMA OPÇÃO, TU MERECES MELHOR, TODAS MERECEMOS MAIS.

Mas não sou amiga dela e a obrigação de me fazer uma espectadora obrigou-me a respeitar as decisões mas trouxe-me muita tristeza.

"Não deixa de ser curioso que um homem egoísta como ele se tenha oferecido para tratar de cães morto. Deve haver outras formas mais produtivas de uma pessoa se entregar ao mundo, ou a uma ideia do mundo. Por exemplo, podia trabalhar mais horas na clínica. Podia tentar persuadir as crianças que andam na lixeira a não encherem os corpos de veneno. Até mesmo sentar-se e dedicar-se mais objectivamente ao libreto de Byron poderia ser considerado um serviço à humanidade. 

Mas há outras pessoas para o fazerem - aquilo dos amigos dos animais, aquilo da reabilitação social, até mesmo aquilo de Byron. Ele salva a honra de cadáveres, porque não há mais ninguém suficientemente estúpido para o fazer. É nisso que ele se está a transformar: num estúpido, num idiota, num desatinado. "

Nós vivemos com uma imagem romântica do pós-apartheid, da nova África do Sul de Nelson Mandela. E ainda bem que assim é, eu sou uma admiradora de Nelson Mandela e de tudo o que ele representou e ainda representa. Mas este livro vem mostrar um bocadinho da realidade. Era impossível que uma transição daquelas fosse feita sem violência, teria sido perfeito perfeito, mas impossível.


234 páginas 

Leya - BIS





sábado, 2 de julho de 2022

A Gorda °° Isabela Figueiredo


Em primeiro lugar é indispensável enaltecer a coragem, a enorme coragem de mostrar de forma pública todo um lado vulnerável recheado de intimidade e/ou desconforto.

Eu falo por mim, deixo para o que é público (como neste momento) situações boas, de tomada de posição ou de indignação, guardo o lado lunar para um punhado, cada vez mais pequeno, de pessoas... Talvez (de certeza) ainda não tenha conseguido descolar-me suficientemente de todos os padrões sociais, ou talvez seja (também) uma questão de personalidade, ou talvez o caminho seja o inverso, mergulhar nesse desconforto ajuda a descolar. Independentemente da causa ou do efeito a coragem é enorme e precisa de ser enaltecida.

Depois temos a mulher, que tem de ser perfeita, que continua a ter de ser perfeita. Mesmo depois de tanta luta por direitos e tratamento digno, depois de tanto reconhecer a utopia e a crueldade de se usarem "top models" como modelo, a mulher continua a ter de ser perfeita. É claro que é discutível a própria posição de não exigir perfeição de uma mulher (principalmente em surdina)... é discutível?? Hoje em dia tudo é discutível... só que não, é utópico e cruel (ponto final) 

Por fim temos o amor. Somos mesmo todos diferentes e amamos todos de forma diferente. Mas todos nós amamos. A Luísa ama de uma forma tão inconstantemente permanente. É intenso e requer toque e cheiro. É tocante e desafiante. A Luísa é uma força da natureza do amor. 

"Só cor, luz e calma. Sinto-me bem. <<Não quero parar de viver. Nunca! Quero para sempre a experiência deste momento e de outros que virão e agora desconheço.>> A declaração mental traz-me à mente o verso de Cesário Verde inscrito na entrada do metro da Cidade Universitária. <<Se eu não morresse, nunca! E eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das cousas! >>

<<Seria interessante. Muito interessante, mesmo>>, pondero. <<Uma vida inteira talvez fosse suficiente para resolver o fogo, as brasas e as cinzas da efermidade terrena. Ou talvez não. Talvez nos fossemos envolvendo em novos fogos ao longo da eternidade. Quão eterna pode ser a eternidade? E duas eternidades?!>> Ri-me com os meus botões. <<Duas eternidades!>> Deixei escapar uma curta gargalhada. Continuava especulando sozinha, evadindo-me comigo, com as minhas conversas. <<O meu cérebro não para. Máquina maldita! Para Maria Luísa, para! Vive isto agora. Vive só isto. Mais nada. >> E obrigo-me a respirar. A focar-me nos sentidos e só neles. As flores e o seu odor. A luz ainda mansa que não me fere os olhos. "

Caminho


domingo, 26 de junho de 2022

Mataram a Cotovia # Harper Lee

Educar um filho... Educar o meu filho é o maior desafio que tenho, porque quero-o fazer da melhor forma... 

Mas o que é educar um filho? É ensiná-lo a ver a vida com a cor que nós usamos ou mostrar-lhe toda a paleta e deixá-lo escolher? É moldá-lo aos padrões da sociedade onde vivemos ou é aceitar o que ele é independentemente dos padrões? É querer que seja a melhor parte de nós ou é permitir que faça o seu caminho?

Eu gosto do pai, Atticus Finch, que vive neste livro, gosto da forma como dá sempre colo, gosto da forma como exige sempre respeito com tudo e todos, gosto da sua forma de não usar a vaidade e gosto da sua forma de amar, com uma aceitação total dos filhos que tem, sem fazer grandes floreados do seu amor.

Podemos tirar tantos temas deste livro, o racismo, a emancipação da mulher, a violência doméstica, as classes sociais, está muito bem escrito, é uma grande obra. 

Mas, para mim, foi a aconchegante e deliciosa forma de paternidade/parentalidade que me marcou.

A história não só é contada pelos olhos de Scout, uma menina dos 6 aos 9 anos, é mais, a história está escrita por uma menina pequena, a real doçura da descrição, a inocência das conclusões, a facilidade da resolução de problemas... tudo aquilo é infância e maravilhoso...

"- Anda cá, Scout - disse o Atticus. Subi para o colo dele e aninhei-me, encaixando a cabeça debaixo do queixo dele. Ele pôs os braços à minha volta e começou a embalar-me suavemente. - Só que desta vez é diferente - disse ele. - Desta vez não estamos a lutar contra os ianques, estamos a lutar contra os nossos amigos. Mas lembra-te de uma coisa, por mais complicada que as coisas se tornem, eles continuam a ser nossos amigos e esta continua a ser a nossa casa. "

Relógio D'Água

337 páginas 

domingo, 6 de fevereiro de 2022

A Guerra dos Mundos () H. G. Wells

 


Adoro o fantástico, a ficção científica, super heróis... essa possibilidade de estrapolar a realidade de uma forma consistente... essa oportunidade de colocar todas as perguntas da nossa existência de uma forma metafórica e criativa.

H. G. Wells aproveita a invasão de seres de Marte para sair de nós e mostrar o quanto somos pequenos:

"Para alguém que tivesse atravessado num balão, nessa manhã de Junho, o firmamento azul abrasador que se erguia sobre Londres, todas as estradas para norte e leste que se estendiam desde o intrincado labirinto das ruas da cidade teriam parecido pontilhadas de negro com a imensidão de fugitivos, cada ponto representando todo o agonizante terror e as tribulações físicas contidas num só ser humano. "

... questionáveis:

"Só a mera imagem deste facto é, sem dúvida, horrivelmente repulsiva para nós, mas ao mesmo tempo julgo que devíamos ponderar no quão repulsivos os nossos hábitos carnívoros poderiam parecer a um coelho dotado de inteligência."

...e fá-lo em 1898.


A sua imaginação não tem limites e acredito mesmo que enquanto de dirigia "até à estrada de Byfleet e [via] veículos a passarem por [ele], o rapaz de um talho numa carroça, uma carruagem cheia de forasteiros, um operário montado numa bicicleta, crianças a caminho da escola, e de súbito a presença destas pessoas torna-se vaga e irreal; [dava] então por [ele]  de passo estugado, novamente lado a lado com o artilheiro, rompendo ambos o silêncio abrasador e opressivo da região". 

A conversa que o narrador tem com o referido artilheiro quando se voltam a encontrar é talvez o momento alto do livro. As previsões que o último apresenta trouxeram-me, por exemplo, à memória a mediocridade e o lado negro do ser humano tão presente nas obras de José Saramago, a sobrevivência dos humanos no futuro do Exterminador Implacável, a nave, roubada às máquinas, usada pelos humanos acordados de Matrix. Compreende-se perfeitamente que seja uma obra que tenha ficado na história e que tenha servido de base para tantas outras estórias maravilhosas. 


228 páginas 

Relógio d'Água

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

O Som e a Fúria # William Faulkner

 


O primeiro livro que li de Mário Vargas Llosa foi "Conversa n'A Catedral" e fiquei rendida aquela confusão de pensamentos e diálogos e memórias, tão real numa conversa entre duas pessoas que não se veem há muito.

Só mais tarde soube da influência de William Faulkner e só agora li "O Som e Fúria" e mais uma vez volto a Vargas Llosa para falar sobre o livro:

 "Cresci num mundo marcado por essa idéia completamente ingênua de que se você tem um bom tema, se uma história é original o romance já está 90% garantido. Lendo Faulkner, você se dá conta de que todos os temas são bons ou maus, que não depende do tema, e sim de seu tratamento, do que você faz com ele. Da linguagem com que você conta a história, da maneira como a conta e, sobretudo, do tempo. Você vê a importância decisiva da narrativa."*

Faulkner não apresenta apenas a mesma família de quatro perspetivas diferentes. Em cada uma das três primeiras partes a narrativa é construída com todos os sentidos do narrador, acompanhando a intensidade e complexidade de cada um... é inteligente, é brilhante....


" Ben parou de gemer. Observava a colher enquanto ela subia até à sua boca. Era como se nele até a ansiedade fosse muscular e a fome inexpressiva, sem que ele soubesse que era fome. Luster dava-lhe de comer com perícia e indiferença. De vez em quando a atenção voltava por tempo suficiente para lhe permitir fazer uma finta com a colher e obrigar Ben a fechar a boca em falso, mas era evidente que Luster estava com a cabeça muito longe. Tinha a mão livre pousada nas costas da cadeira e os dedos tamborilavam tentativamente, suavemente, sobre a superfície inerte, como se do vazio se elevasse uma música inaudível, e uma vez chegou mesmo a esquecer-se de fazer negaças a Ben com a colher, enquanto os seus dedos faziam negaças na madeira arrancando um arpejo mudo e arrebatado, até Ben lhe chamar a atenção pondo-se de novo a choramingar. "


Leya - Livros RTP


*Mário Vargas Llosa em entrevista ao "El País", publicado na Folha de São Paulo a 24 de Abril de 1995 (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/4/24/ilustrada/26.html) 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Entre Dois Reinos # Suleika Jaouad

A vida pode ser maravilhosa, cheia de pessoas boas que a preenchem com carinho e amor e nos fazem manter o brilho nos olhos, cheia de bons dias de sol, piquenines em jardins e mergulhos no mar... MAS... também pode ser assustadora e um lugar mau, pode ter consecutivos pequenos acidentes que nos vão consumindo a energia ou catástrofes momentâneas que nos marcam para sempre.

A vida é feita de tudo isto e eu tenho tentado aprender a agarrar-me aos momentos de luz, a estar verdadeiramente neles, a aproveitar cada respirar. Descobri que gosto de viagens onde o caminho já é a viagem, pode ser uma peregrinação a São Bento, uma ida de bicicleta a Santiago, uma qualquer road trip. A sensação de me saber em movimento para um destino/objetivo definido e concreto contrasta com a infinita incerteza e ausência de controlo da vida e, por isso, sinto paz.

Foi tudo isto (e muito mais) que eu reencontrei neste livro sincero e corajoso.

Suleika esteve doente, está doente, e sim, a vida é absolutamente injusta e há caminhos mais difíceis que outros. Desejo profundamente que continue a viver por muitos anos e em cada momento, até naqueles em que está quase exclusivamente a lutar.

Lua de Papel

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

A Casa Ꚛ Emma Becker

 

Emma Becker decide tornar-se prostituta por dois grandes motivos, pelo permanente fascínio que sempre sentiu pelas prostitutas e para escrever sobre o assunto, sobre elas, sobre si e sobre o fascínio por elas.

Confesso que fiquei surpreendida pela respeitabilidade e seriedade com que este livro tem sido apresentado, não porque achasse, à partida, que não o merecesse, mas porque até aos dias de hoje, a profissão mais antiga do mundo, não ganhou respeitabilidade. Emma teve as mesmas dúvidas, “Quão precária me parecia a minha situação! Os meus objetivos nobres, a minha ideia de superar o bordel haviam-se esfumado, deixando apenas lugar para a verdade nua e crua a que nem eu nem as pessoas que me rodeiam poderíamos escapar: tinha trabalhado num bordel. Bem podes escrever todos os livros que quiseres, eis a única coisa que reterão do teu CV, sua espertalhona.”. Mas depois de o ler, não há como não o respeitar ou levar a sério.

“A Casa” está soberbamente bem escrito. De cima dos seus 31 anos, Emma apresenta uma escrita culta, inteligente em vários sentidos, cativante, envolvente e riquíssima em tantas análises do mundo, da sociedade, do ser humano, do ser mulher. Fiquei assombrada com a magnitude com que a mulher é apresentada. Somos tão dignificadas neste livro, somos tão respeitadas… e sim, somos todas, acreditem… ao demonstrar todos os clichés daquilo que uma prostituta é, e ao acrescentar-lhes tantas dimensões quantas aquelas que julgamos impossível, Emma eleva a nossa beleza, sensualidade e complexidade.

E que fique claro que eu não elevo este livro, porque acho a experiência cool, ou mega atual, ou hipster ou porque promove a legalização da prostituição (até porque acho que não promove e eu nem tenho uma opinião completamente formada sobre isso). Não!! Elevo “A Casa” pela forma como Emma decidiu escrever a sua experiência; elevo-o porque não possui uma única generalização, não possui um único lugar-comum. Elevo-o porque na sua demanda, Emma só se quer descobrir e compreender, e fá-lo com tanto amor pelas mulheres que, para mim, deixa uma sensação de que nos devemos pura e simplesmente aceitar e viver felizes com a nossa grandeza.

“Não consigo reler nem um dos meus livros sem me aperceber de que só escrevei sobre mulheres. Sobre o facto de eu própria ser uma e sobre as inúmeras formas de que ser mulher se reveste. E será, sem dúvida, a obra da minha vida: matar-me a querer descrever este fenómeno, aceitando a sensação de que em algumas centenas de páginas só avancei meio centímetro e procurando ficar satisfeita com esse meio centímetro como se de uma importante descoberta se tratasse.”


Casa das Letras

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Ensaio sobre a Lucidez → José Saramago



 E se de uma forma espontânea, ou pensada, ou calculada, ou combinada, grande parte da população votasse em branco numas eleições??

José Saramago tem, na minha opinião, alguns dons, o inegável dom da escrita é um deles. Os seus livros são “coisas” inteligentes e acutilantes, onde muitos pontos finais, parágrafos e travessões não estão presentes, nem fazem falta, onde se salta de diálogos para reflexões gramaticais, contextuais, descritivas.

Outro dos dons é a capacidade de ter fantásticas ideias para criar as suas estórias. Poderíamos começar logo por duvidar, e eu seriamente duvido, sobre a possibilidade de conseguirmos mobilizar mais de 80% da população a levantar a mesma bandeira política. Mas por isso é que Saramago é tão maravilhosamente bom, porque ao mesmo tempo que tem a coragem e a capacidade de mostrar o quanto o ser humano pode ser absolutamente abominável, e este lado negro agarra-se a nós quando o lemos e sentimo-nos (eu sinto-me) sem qualquer esperança no futuro da nossa espécie, também consegue mostrar o quanto conseguimos ser genuinamente bons, o quanto conseguimos ser genuinamente empáticos, o quanto conseguimos perceber que se abrirmos mão do nosso carater deixamos de ser quem somos e isso não vale a pena, este lado luminoso é tão real e tão sentido que nos sentimos (eu sinto-me) confortados e “quentinhos”. Para mim este é o dom mais precioso de José Saramago, o equilíbrio entre a escuridão e a luz, a relatividade com que ele mergulha nos dois é desarmante, não há música de suspense antes de um mau momento, não existem fogos de artifício antes dos bons momentos, existe tudo e cada coisa na mesma linha de importância.

Mas, e se de uma forma espontânea, ou pensada, ou calculada, ou combinada, grande parte da população da capital de um país votasse em branco numas eleições?

Não é bonita a reação dos governantes, a ânsia por manter e ganhar mais poder pode fazer coisas assustadoras.

A democracia é colocada em perigo com tantos votos em branco?

“que os direitos só o são integralmente nas palavras com que tenham sido enunciados e no pedaço de papel em que hajam sido consignados, quer ele seja uma constituição, uma lei ou um regulamento qualquer, compreendereis, oxalá convencidos, que a sua aplicação desmedida, inconsiderada, convulsionaria a sociedade mais solidamente estabelecida, compreendereis, enfim, que o simples senso comum ordena que os tomemos como mero símbolo daquilo que poderia ser, se fosse, e nunca como sua efectiva e possível realidade. Votar em branco é um direito irrenunciável, ninguém vo-lo negará, mas tal como proibimos às crianças que brinquem com o lume, também aos povos prevenimos de que vai contra a sua segurança mexer na dinamite.”

Mas é colocada em causa e é caricaturada com a resposta dada!

 

Prémio Nobel de Literatura 1998

 

329 páginas

Caminho

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

rapariga mulher outra X Bernardine Evaristo


 

O feminismo sempre foi um tema complexo…

“as feministas radicais queriam áreas exclusivas para as mulheres, que constituiriam uma zona autónoma autorregulada

as feministas radicais lésbicas queriam áreas separadas das feministas radicais não lésbicas, as quais constituiriam uma segunda zona autónoma autorregulada

as feministas radicais lésbicas negras queriam o mesmo, com a ressalva adicional de não entrarem lá brancos fossem de que género fossem”

… porque basicamente as mulheres nunca se conseguiram entender.

 

Por continuar a ser um tema tão atual e tão necessário, confesso que fiquei um bocadinho chateada quando percebi que esta crispação feminina estava muito presente no livro, confesso que senti alguma desilusão por muitas das mulheres presentes usarem a sua individualidade carregada de competitividade e ego como o caminho para nunca parar de lutar.

Tal como Carole que esperava ver uma peça “sobre a primeira mulher negra a ser eleita primeira-ministra do Reino Unido, ou a ganhar um Nobel na área da ciência, ou sobre uma mulher negra que tivesse subido a pulso para se tornar bilionária, ou sobre outra qualquer que se pudesse considerar um símbolo de sucesso de mais alto nível conquistado de forma legitima” e que viu uma peça de “guerreiras lésbicas que andam pelo palco feitas machonas e que se apaixonam todas umas pelas outras”… também eu estava à espera, neste livro, de mulheres que apesar de todas as dificuldades não conseguissem olhar o mundo, a vida e os outros, com outros olhos que não fossem a empatia em cada momento…

Convenhamos que essas mulheres (ou qualquer outro ser humano) não existem, convenhamos que não tenho o direito de criticar o caminho que, estas mulheres sofridas, escolheram para conseguirem ter a cabeça fora de água, convenhamos que o livro é tão real e humano tanto quanto a realidade e a humanidade o é.

 

No fim do livro não acompanhei a desilusão de Carole com a peça, fiz as pazes com o livro e consegui ver nele a beleza da diversidade feminina e a inteligência com que muitas perspetivas foram interligadas. Gosto do confronto das novas perspetivas com as antigas:

“ouço falar em feminismo e penso logo em carneirada (…) ser mulher já está fora de moda (…) no futuro vamos ser todos não binários, não vai haver homens nem mulheres, aliás os géneros masculino e feminino são construções sociais, ou seja, (…) o teu feminismo está redundante”

“os privilégios são relativos e contextuais, (…) achas que o Obama [por ser preto] é menos privilegiado do que um parolo americano que cresceu num parque de atrelados filho de uma mãe solteira e toxicodependente e de um pai sempre a ir a vir da prisão? E será uma pessoa com um grau elevado de incapacidade é mais privilegiada do que um sírio que foi torturado e anda à procura de asilo político?”


470 páginas

Elsinore

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Na Terra Somos Brevemente Magníficos ∩ Ocean Vuong



É quando leio livros como este que confirmo, em mim, a certeza do quanto é mais fácil e ao mesmo tempo fascinantemente maravilhoso ser o outro pela leitura. Em livros tão intrinsecamente expostos como este, sentimos a pele, o cheiro, a alegria, a felicidade, a tristeza, a solidão… com toda a real relatividade com que elas aparecem na vida de qualquer um de nós.
 
“O problema é que não quero que me retirem a minha tristeza, tal como não quero que me retirem a minha alegria. São ambas minhas. Fui eu que as fiz, que diabo. E se a euforia que sinto não for apenas um “episódio bipolar”, mas algo pelo qual lutei bastante? Talvez eu comece a saltar e te beije com demasiada força no pescoço quando regresso a casa e descubro que é noite de piza, porque às vezes uma noite de piza é mais do que suficiente, é o meu mais fiel e frágil ponto de referência. E se afinal corro para a rua, porque a Lua nesse dia parece saída de um livro para crianças, pairando, enorme e ridícula, acima da fileira de pinheiros, como se fosse uma estrada esfera medieval?”
 
“Cão pequeno” decide escrever uma carta à mãe, mas a mãe não sabe ler, mas a mãe não sabe inglês… mesmo assim o “Cão pequeno” escreve esta carta, que é este livro, cheia de tudo, e tudo com muita honestidade… a carta não tem só episódios e sentimentos, a carta tem vida em toda a sua essência, tem pessoas em toda a sua complexidade… a carta tem muito amor e um buraco grande e preto no lugar perda…
 
“”Eh”, disse, quase a dormir, “o que eras antes de me conheceres?”
“Acho que era alguém prestes a afogar-se.”
Uma pausa.
“E o que és agora?”, sussurrou, cedendo ainda mais ao sono.
Pensei por instantes. “Água.””
 

 

Relógio de Água
215 páginas 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

O enigma do quarto 622 ∞ Joël Dicker

 


Este é o segundo livro que leio de Joël Dicker (comecei pelo “A verdade sobre o caso Harry Quebert”) e em ambos senti o mesmo. Assim que comecei senti que estava a entrar numa montanha russa desconhecida que me surpreendia em cada curva com emoções fortes. Eu não gosto particularmente de montanhas russas e por isso fazendo o paralelismo poder-se-ia dizer que também não gostei de ler os livros. O único aspeto que me incomodou em todo o processo foi o facto de eu sentir que estava presa naquela cadeira da montanha russa, como se eu não conseguisse sair dali. Mas é claro que conseguia sair, bastava fechar o livro… mas não era possível… os livros foram, para mim, tão absolutamente viciantes, que a opção de fechar o livro foi algo tão absurdo como saltar de uma cadeira de uma montanha russa em andamento… e por esse motivo, tanto o primeiro como o segundo foram lidos em pouco mais que um par de dias.

 
Joël Dicker tem uma criatividade e uma capacidade em entrelaçar histórias acima do que é considerado normal e neste livro, em particular, para além de apresentar um grande mistério, aproveitou também para homenagear o seu falecido editor Bernard de Fallois, sendo ele próprio uma personagem do livro e partilhando algumas das conversas que teve com Bernard.


“Ela rasgou o papel em volta do espesso volume: era um exemplar de E Tudo o Vento Levou.
– Era um dos livros preferidos do Bernard – expliquei-lhe. – Contou-me que o leu durante a guerra, teria uns treze ou catorze anos, e, ao fugir de carro com a mãe e o irmão, foi a ler o E Tudo o Vento Levou no banco traseiro. Corria o boato de que a aviação italiana estaria a bombardear as colunas de civis, e o Bernard, mergulhado na leitura, só desejava que uma explosão não o matasse antes de acabar o livro. Para ele, tratava-se de um grande romance.
– O que é um grande romance? – perguntou Scarlett.
– Segundo Bernard, um «grande romance» é um quadro. Um mundo que se oferece ao leitor, para depois o engolir numa imensa ilusão construída em pinceladas. Se o quadro mostra a chuva, sentimo-nos molhados. Uma paisagem glacial e coberta de neve? Damos por nós a tiritar de frio. E ele dizia: «Sabe o que é um grande escritor? É um pintor, nem mais. No museu dos grandes escritores, do qual os bons livreiros possuem a chave, há milhares de telas à nossa espera. Se lá entrarmos uma vez, nunca mais quereremos sair.»”

 

Alfaguara

610 páginas

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Conduz o Teu Arado Sobre os Ossos dos Mortos X Olga Tokarczuk



Tenho um compromisso comigo mesma de tentar ver a realidade da forma mais verdadeira possível. Tento para isso considerar o maior número de variáveis, tento ver as coisas de cima, tento colocar-me em todas as posições…
Funciona???
É claro que não. É claro que a minha verdade não é a realidade, ou pelo menos, toda a realidade. Acredito até, que o próprio processo que estabeleci tolde parte dela…

Este livro fala, também disso, de verdades.
E se a nossa verdade fosse acreditar que os astros nos conduzem e “dominam”?
E se a nossa verdade fosse acreditar que todos os animais deveriam ter direito exatamente a todos os direitos que nós temos?
E se a nossa verdade fosse acreditar que a Ira “faz com que a mente se torne lúcida e aguda”; que toda a sabedoria nasce da Ira?

Talvez cada uma destas verdades seja um bocadinho verdade… talvez umas mais do que outras…

“Sabe, às vezes, tenho a impressão de que vivemos num mundo inventado por nós mesmos. Estabelecemos o que é bom e o que não é, desenhamos mapas de significados… e, depois, passamos a vida inteira a lutar contra aquilo que concebemos. O problema é que cada um tem a sua versão do mundo, e por isso é tão difícil as pessoas entenderem-se”

Mas há uma verdade da qual não abro mão... ler... ler clássicos, modernos, fantástico, biografias... ler melhora a nossa verdade sobre a realidade!!

Cavalo de Ferro
286 páginas

Prémio Nobel de Literatura 2018