sábado, 8 de abril de 2017

Homens imprudentemente poéticos ₪ Valter Hugo Mãe



Existem aqueles escritores que nós reconhecemos porque veem o mundo da mesa forma que nós, dão força aos nossos sentimentos mais presentes e fazem-nos sentir que não estamos sozinhos. Depois existem aqueles que despertam em nós sensações adormecidas que também reconhecemos mas de uma forma longínqua e associadas a algum um momento ou fase da nossa vida. E depois existem os outros que nos transmitem sensações novas, de visões do mundo que não temos, mas que pela sua escrita e descrição conseguimos sentir.

Para mim Valter Hugo Mãe está nesta última categoria. Eu não vejo o mundo como ele, eu não sinto o mundo como ele… antes de o ler.

Um livro extremamente poético onde existe uma melancolia e uma fatalidade que envolve a jovem cega Matsu, o jardim da floresta, o quimono da senhora Fuyu, os animais assassinados por Itaro… onde existem o amor, a inveja, a ira, a bondade… onde existe o fundo do poço, escuro, frio húmido, habitado pelo remorso em forma de fera.

“O oleiro dava-lhe as graças e assim se reconheciam. Sabiam que ambos se debatiam com feras eminentes. Predadores que haveriam de destruir tudo o que de mais sagrado tinham. A jovem Matsu percebia o quimono movido ao vento e sorria tristemente. Tinha dúvida nenhuma de que, como Saburo, sucumbiria também em breve, ineficaz nas palavras, marcada pelo destino.
A criada Kame gritava: musumé, onde estás tu. E a jovem Matsu respondia: no teu coração. A criada voltava a gritar: e mais onde. Matsu respondia: ao sol. Estou aqui encostada ao sol. Era como se o sol se estendesse até tocar no corpo ao abandono da jovem. A criada juntava-se-lhe e culpava-se de parar os trabalhos por um instante. Por vezes, escolhiam a fome em troca de um mínimo de sossego. A felicidade podia acontecer num ínfimo instante, ainda que a fome se mantivesse e até a sentença para sofrer. O sofrimento nunca impediria alguém de ser feliz.”

214 páginas
Porto Editora

domingo, 2 de abril de 2017

O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo * Haruki Murakami




Tão bom, tão bom , tão bom… Há algum tempo que não lia um livro diferente e surpreendente. Onde não conseguimos imaginar como vai acabar, onde a cada par de páginas achamos que vai acabar de forma diferente e queremos que acabe de forma diferente.

Para mim, mais do que um contador de histórias, Haruki Murakami é um contador de pessoas. Só assim faz sentido tudo o que não tem sentido nos seus livros, porque o que estamos a ler é alguém em toda a sua complexidade. Ele descreve as pessoas na sua simplicidade, nos seus hábitos, nos seus gestos… mas depois vem a “loucura” vêm os circuitos elétricos no cérebro, vem o shuffling, vêm os Semióticos e os Invisíveis, vem a cidade perfeita rodeada por uma muralha e povoada por unicórnios… vem o Fim do Mundo.

Tudo para nos falar de uma aceitação sem resignação. Da capacidade de aceitar o mundo até aquele ponto em que podemos deixar de ser quem somos. Da perceção de que podemos sempre ser nós mesmos independentemente do sítio, das circunstâncias e das pessoas que nos rodeiam.

“Dizes-me que nesta cidade não há lutas, nem ódio, nem esperança. Magnífico! Olha se tivesse forças, eu aplaudia. Mas o facto de não haver lutas, nem ódio, nem desejos significa que também não existe o oposto de tudo isso. Ou seja, não existe alegria, serenidade ou amor. É porque existem o desespero, a desilusão e a tristeza que há alegria. Uma serenidade sem desespero é coisa que não existe em parte alguma. É a isso que eu chamo a "natureza".”

LEYA
565 páginas


quarta-feira, 1 de março de 2017

O Quarto de Jack # Emma Donoghue




Recebi este livro como presente de Natal há uns anos, mas depois de ler algumas páginas fechei-o sem forças para o ler… a maldade e a morbidez deixam-me mal disposta e embora goste de ler livros que desafiam as minhas sensações, achei que este era uma provação…

Em 2015 saiu o filme… e mais uma vez fugi da história… Mas este ano ao ser recordada que o Óscar de melhor atriz foi dado à Mamã deste filme ganhei coragem e voltei a pegar nele.
Mas usufruindo do segundo direito do leitor (de Daniel Pennac): “O direito de saltar páginas”, só peguei no livro para ler o depois… a vida depois de sair do quarto.

Não acho extraordinário o amor que existe entre esta mãe e este filho, nem acho extraordinário a capacidade de adaptação e de sobrevivência que o Jack demonstra. E quando digo extraordinário refiro-me a ser fora do normal, não, não é fora do normal… as crianças felizmente têm uma capacidade de uma sobrevivência saudável completamente fora do normal… e o amor… é o amor incondicional que felizmente a grande maioria das mães e filhos conseguem sentir, é aquele amor que faz com que as mães abram mão de muita coisa a pensar no bem-estar dos seus filhos e faz com que os filhos olhem para as mães como as mulheres mais bonitas do mundo e a melhor pessoa com quem se pode estar.
O que eu acho extraordinário é a força com que a palavra recomeço surge associada a estes sentimentos… A beleza das personagens e a beleza da relação que está escrita de uma forma que nos apela aos sentidos mostra-nos que cada hora, cada dia, cada semana fora do quarto ou no mundo é um passo que se dá, é um degrau que se sobe, é algo que se conhece.
É incrível que depois de uma história destas fiquemos com a forte sensação colada dentro de nós de que tudo é um milagre em vez de acreditarmos que não há milagres.

“No mundo, reparo que as pessoas estão quase sempre enervadas e não têm tempo. Até a Avó diz isso muitas vezes, mas ela e o Avô Emprestado não têm empregos, por isso não sei como é que as pessoas com trabalhos conseguem trabalhar e também vier. No Quarto eu a Mamã tínhamos tempo para tudo. Se calhar o tempo espalhado pelo mundo fica muito fino como manteiga, espalha-se pelas entradas e pelas casas e pelos parques infantis e pelas lojas, por isso só existe uma pequena mancha de tempo em cada sítio e depois têm todos de se apressar para o próximo sítio.
Além disso, onde quer que veja crianças, os adultos quase nunca parecem gostar delas, nem sequer os pais. Dizem que as crianças são lindas e tão queridas, fazem com que a criança faça tudo de novo para tirarem uma fotografia, mas na verdade não querem brincar com elas, preferem beber café e falar com outros adultos. Por vezes, uma criança pequena está a chorar e a Mamã dela nem sequer a ouve.”

332 páginas
Porto Editora

domingo, 15 de janeiro de 2017

admirável mundo novo X Aldous Huxley

Porque a paixão pelos livros não é só minha e não sou só eu que os consigo descrever…
Porque li este livro há muitos anos e embora tenha adorado sinto que não faria o comentário ideal…
Porque acho que a Rita o conseguiu fazer muito bem…
Mas acima de tudo porque:
é especial quando aparecem laços de onde menos se espera…
é fantástico quando não se deixam morrer…”

By Rita Viegas:
Vivemos num modo de procura exaustivo. Procuramos alegria, prazer, conforto, felicidade e acima de tudo, fugir ou abstrairmo-nos da dor. Em Admirável Mundo Novo, parece-me, Aldous Huxley dá-nos uma lição sobre quão absurda pode ser uma sociedade que satisfaça ilimitada e facilmente toda essa procura. Cria-se a sociedade perfeita, onde desgostos amorosos são substituídos por relações desapegadas, sempre ao dispor. Qualquer pensamento menos alegre, de dúvida ou inquietação é silenciado por um ou dois comprimidos de soma – “todas as vantagens do Cristianismo e do álcool; nenhum de seus inconvenientes. A arte é manufaturada exaustivamente para proporcionar nos cinco sentidos as exatas sensações que tanto procuramos, deslumbrando-nos com o cinema sensorial. Sentimentos generalizados de paz, aceitação e pertença dominam, depois de injetados repetidamente durante o sono, no processo de condicionamento de cada individuo. E satisfeitos a todos os níveis, esperava-se, tudo estaria exatamente bem para todos os membros dessa sociedade. 
Mas com toda a sua mestria e ironia Huxley leva-nos numa viagem de desconstrução dessa utopia, mostrando-nos o quão absurdo é acreditar que dispor de toda essa fácil e ilimitada felicidade é condição suficiente para que todos sejam completos.

É este género de ideias que poderia facilmente descondicionar os espíritos menos solidamente fixados entre as classes superiores, que poderia fazê-los perder a fé na felicidade como supremo bem e fazê-los acreditar, ao invés disso, que o fim está em qualquer parte para além, em qualquer parte fora da esfera humana presente, que o objetivo da vida não é a manutenção do bem-estar, mas sim um certo reforço, um certo refinamento da consciência, algum aumento do saber... Coisa que - pensou o Administrador – até pode muito bem ser verdade, mas é inadmissível nas circunstâncias atuais. Pegou de novo na caneta e sob as palavras A não publicar riscou um segundo traço, mais grosso, mais negro que o primeiro. Depois suspirou:
«Como isto seria divertido se não fosse obrigado a pensar na felicidade!»
É nos mostrado como esta fácil felicidade não só é insuficiente para nos satisfazer, como não pode ser comparada com a idealização de felicidade que nos fez iniciar a procura em primeiro lugar.

A felicidade real sempre parece bastante sórdida em comparação com as supercompensações do sofrimento. E, por certo, a estabilidade não é, nem de longe, tão espetacular como a instabilidade. E o fato de se estar satisfeito nada tem da fascinação de uma boa luta contra a desgraça, nada do pitoresco de um combate contra a tentação, ou de uma derrota fatal sob os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.

Um livro sempre atual, se não cada vez mais, num mundo de tantas distrações e ilusões, que nos leva numa interessante reflexão e a questionar se aquilo que somos também nós condicionados a procurar será realmente tudo aquilo que precisamos.

320 páginas
Antigona






segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Jesusalém ≎ Mia Couto



Não há ninguém que escreva como Mia Couto, eu confesso e admito que não devo conseguir entender metade da profundidade que este grande escritor coloca nas suas histórias. Talvez porque me falta viver muito, ou talvez porque não sinto o mágico continente africano da forma como ele o sente. Este cenário que se repete nos seus livros e que nos prende à terra com a sua força, a sua poeira, o seu calor, a sua exuberância e a sua indescritível beleza também faz as pessoas que vivem nele.

No entanto, reconheci em Jesusalém o abismo que nos visita (a todos) em algum momento da vida. A forma como podemos mascarar o sofrimento e deixar de viver para não sofrer. Jesusalém é esse sítio desencantado, onde não se sofre para não se viver, onde se espera que Deus entre e peça desculpa.

Eu não gosto de histórias tristes ou pelo menos de histórias sem esperança, e se gosto desta história, é porque os apontamentos de luz iluminam tudo o resto.

“De súbito me golpeou uma imensa saudade de Noci. Talvez vá ter com ela mais cedo do que pensava. A ternura daquela mulher me confirmava que meu pai estava errado: o mundo não morreu. Afinal o mundo nunca chegou a nascer. Quem sabe eu aprenda, no afinado silêncio dos braços de Noci, a encontrar a minha mãe caminhando por um infinito descampado antes de chegar à última árvore.”


285 páginas
Caminho

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

As Altas Montanhas de Portugal ∾ Yann Martel



Ler Yann Martel é entrar em contacto com o sofrimento, com a resiliência, com a fé… A fé, essa capacidade de saber que vai correr tudo bem mesmo quando corre tudo mal, essa capacidade de aceitar o que não conseguimos controlar sem perder o equilíbrio, essa palavra que durante muitos anos esteve bem ou mal associada à religião mas que agora surge como parte do desenvolvimento pessoal.

Por esse motivo as obras de Yann Martel são, para além de inteligentes e profundas, pertinentes e atuais.

As Altas Montanhas de Portugal, envolve muitos locais, dos quais destaco, porque estão no meu coração, Lisboa, São Tomé e Príncipe e o norte de Portugal e apresenta três histórias separadas por algumas décadas onde o sofrimento pela morte de alguém próximo se mantém presente com três tipos de reações:

“A primeira parte do livro simboliza o ateísmo [a viagem de Tomás, perdido e sem fé], a segunda aborda o agnosticismo [os encontros do médico legista com o fantasma da sua esposa e com uma viúva que quer guardar-se no corpo do defunto], a terceira parte explora como seria viver com Jesus de Nazaré e ser um dos discípulos [um senador canadiano viúvo adota um chimpanzé, abandona tudo e refugia-se numa aldeia transmontana]” (Yann Martel em entrevista à Visão)

Das três é notório que a ultima tem a capacidade de transmitir alguma paz e destaca o poder do agora, que os animais (em particular e nesta obra o chimpanzé) conseguem desfrutar.

“Ao passo que Odo passou a dominar o simples truque humano de fazer papas de aveia, Peter aprendeu a difícil capacidade animal de nada fazer. Aprendeu a libertar-se da correria do tempo e a comtemplar o tempo em si. Tanto quanto lhe parece, é isso que ocupa a maior parte da existência de Odo: existir no tempo, como alguém sentado à beira de um rio a observar a água fluir. É difícil de aprender, limitar-se a sentar-se ali e existir. Ao início ansiava por distrações. Abstraia-se em recordações, fazendo correr o mesmo filme vezes sem conta, afligindo-se em remorsos, ansiando pela felicidade perdida. Mas está a conseguir dominar esse estado de repouso banhado de luz de simplesmente ficar à beira do rio.”

Editorial Presença
270 páginas

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Comboio Nocturno para Lisboa ► Pascal Mercier


Fico curiosa sobre o que terá estimulado um escritor nascido em Berna e que vive em Berlim a criar uma personagem tão profunda e estimulante como Amadeu de Prado.

Para mim foi interessante perceber a imagem romântica e envolvente que nós portugueses conseguimos transparecer. Está lá o fatal, a esperança, a saudade, o orgulho… num jeito tão português.

A musicalidade da Língua Portuguesa é tantas vezes comemorada e a luz… a luz de Lisboa, essa não passa mesmo despercebida.

“Será que existe um segredo sob a superfície da actividade humana? Ou serão as pessoas tal e qual como se manifestam nos seus actos tão explícitos?
Pode parecer estranho, mas em mim a resposta muda com a luz que cai sobre a cidade e o Tejo. Se for a luz mágica de um dia vibrante de Agosto, capaz de produzir sombras claras e de um recorte nítido, a ideia de uma profundidade humana subjacente e oculta parece-me estranha como um fantasma curioso e, de algum modo enternecedor, qualquer coisa como uma miragem que se materializa quando me ponho a olhar fixamente as ondas que cintilam nessa mesma luz.”

Coisas nossas que nós não vemos porque estamos cá dentro. É bonito vê-las escritas por alguém que não é de cá.

As divagações que Pascal Mercier nos apresenta de Amadeu de Prado são extremamente ricas. São pensamentos e preocupações que estão presentes em cada um de nós mas que são escritos de uma forma tão clara, fluida e talvez até um pouco filosófica que se torna um prazer enfrentá-los.

“Ou trata-se do desejo – um desejo evanescente e patético – de voltar àquele ponto da minha vida em que teria podido optar por outra direcção completamente diferente daquela que acabou por fazer de mim aquilo que sou hoje?
Há algo de estranho neste desejo, um sabor a paradoxo e extravagância lógica. E isto porque aquele que o deseja já não é aquele outro que um dia, livre ainda de toda a carga do futuro, se viu perante a bifurcação dos caminhos. Pelo contrário, aquele que anseia pelo retorno, tentado nostalgicamente revogar o irrevogável, está marcado por toda a carga de um futuro que, ao ser percorrido, se tornou passado. E tentaria revogá-lo se não o tivesse percorrido e sofrido?”    

D. Quixote

423 páginas

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Triologia o Século ╠ Ken Follet




Começando pelo autor, Ken Follet, só posso afirmar que se trata de um grande escritor e um excelente contador de histórias. Se não o fosse não conseguiria agarrar o leitor durante as mais de 3000 páginas desta triologia com assuntos tão pouco interessantes, ou digamos de forma diferente, tão pouco populares como a história e a política tornando-os sim verdadeiramente interessantes.

Para aqueles, nos quais eu me incluo obviamente, que sempre tiveram uma enorme dificuldade em viver as aulas de história como um momento estimulante e surpreendente, acredito que a leitura d’”A Queda dos Gigantes” d’”O Inverno do Mundo” e do “No Limiar da Eternidade” aumentará a chamada cultura geral sobre o século passado de uma forma bastante agradável.

A apresentação do nosso passado é feita ao longo da vida de três gerações de algumas famílias que nos conquistam pela sua autenticidade. As guerras mundiais não são descritas, são vividas. Os novos modelos de governação assim como as novas leis não são apresentadas, são conquistadas. Nós não ficamos apenas a saber o que aconteceu, ficamos a saber também como aconteceu e porque aconteceu.

É claro que é a verdade de Ken Follet sobre toda a história que, se não me engano, é a verdade de alguém que acredita na paz e defende a democracia, mas não existem verdades completamente imparciais e confesso que me identifico bastante com esta.

Por outro lado é, na minha opinião, inegável o serviço que esta obra pode fazer no sentido de mostrar: 1. o quanto as posições radicais são perigosas, porque o foram efetivamente no passado; 2. que precisamos de ter cuidado e responsabilidade nas opções socais/cívicas/comunitárias que escolhemos e daí a importância da política; 3. que foi possível acabar com duas grandes guerras e que não nos pode interessar de todo entrar no ciclo vicioso.

Pessoalmente sou fanaticamente céptica relativamente a todo o tipo de fanatismo. O mundo é demasiadamente grande para existir uma só verdade absoluta e por outro lado é demasiadamente pequeno para acharmos que conseguimos criar um espaço rodeado de muros onde essa verdade absoluta pode viver eternamente.

Esta é a primeira vez que escrevo sobre um livro (neste caso 3) quando ainda não o acabei, mas independentemente do que estiver escrito nas restantes 600 páginas não duvido que mereça estas palavras.

“O jovem pediu um passaporte da Alemanha Ocidental, que era concedido automaticamente aos fugitivos.
(…)
- Vivíamos ambos no Leste. Ela ainda lá está, mas eu fugi.
- Como?
- Derrubei a barreira com uma carrinha.
- Foste tu? Li isso nos jornais. Eh, pá, que fixe! Mas por que diabo não trouxeste a miúda?
- Ela não compareceu ao encontro.
- É pena. Queres uma bebida? – Danni foi à parte de trás do bar.
- Obrigado. Gostava de lá voltar por causa dela, mas agora sou procurado por assassínio.
Danni tirou duas imperiais. - Os comunistas fizeram uma grande história da tua fuga. Dizem que és um criminoso violento.
Tinham igualmente pedido a sua extradição. O governo da Alemanha Ocidental recusara, afirmando que o guarda alvejara um cidadão alemão que queria apenas passar de uma rua de Berlim para outra. A responsabilidade da morte pertencia ao regime não eleito da Alemanha de Leste que aprisionava ilegalmente a sua população.”


Editorial Presença
Livro 1 – A Queda dos Gigantes
Livro 2 – O Inverno do Mundo
Livro 3 – No Limiar da Eternidade

sábado, 12 de outubro de 2013

A possibilidade de uma ilha + Michel Houellebecq


Sobre o autor limito-me a corroborar a opinião de um grande amigo meu e da opinião pública de que se trata de um negativista, estando as suas características de provocador, fatalista e pessimista presentes neste livro.

O livro apresenta-nos a narrativa de vida de Daniel1 que vai sendo lida e complementada por dois dos seus clones Daniel24 e Daniel25 que existem 1000 anos depois. Daniel24 e Daniel25 são já chamados neo-humanos devido a algumas alterações físicas que foram sendo feitas com o objectivo de melhorar a autonomia e sustentabilidade da espécie acabando por retirar alguma da “angustia” do ser humano.

Confesso que não me identifico com posturas negativistas, reconheço que existe uma luta constante entre o mal e o bem, provocada essencialmente pelo ser humano, mas no fundo tenho a esperança que no final o bem vencerá, aliás, na minha opinião, o bem vem vencendo desde sempre, basta olharmos para aquilo que fomos e que somos.
No entanto, gosto de ler livros futuristas que consigam apresentar uma teoria para a nossa evolução que tenha, no mínimo, um fio condutor.

Mas voltando á obra… Michel Houellebecq apresenta-nos a humanidade dos nossos dias de uma forma crua e nada bonita, não deixa de ser realista mas é duvidável a generalização que pretende transmitir. Em certos momentos aparecem raios de luz no meio de uma descrição tão cinzenta mas, contra minha vontade, acabam por desaparecer algumas páginas depois.
A humanidade e neo-humanidade que existem um milénio depois, estão imensamente separados física, psicológica e comportamentalmente. Não vou adiantar muito sobre esse futuro longínquo, uma vez que vai sendo desvendado ao longo do livro e suscita a nossa curiosidade mas não resisto a colocar um pedaço das divagações de Daniel25:

“Por vezes, de noite, levanto-me para observar as estrelas. Transformações climáticas e geológicas de grande extensão remodelaram a fisionomia da região, como a da maior parte das regiões do mundo, durante os dois últimos milénios; o brilho e a posição das estrelas, o seu agrupamento em constelações são sem dúvida os únicos elementos naturais que, desde o tempo de Daniel1, não sofreram nenhuma transformação. Acontece-me, quando à noite observo o céu, pensar nos Eloim, nessa estranha crença que viria afinal, por portas travessas, a desencadear a Grande Transformação. Daniel1 revive em mim, o seu corpo sofre uma nova encarnação, os seus pensamentos são os meus, as suas recordações as minhas; a sua existência prolonga-se realmente em mim, bem mais do que qualquer homem alguma vez sonhou prolongar-se através da sua descendência. No entanto, a minha própria vida, como muitas vezes penso, está muito longe de ser a que ele teria gostado de viver.”


393 páginas
Dom Quixote

segunda-feira, 1 de abril de 2013

As Cinquenta Sombras ᴥ E. L. James



Bem… As 50 sombras de Grey…

Quando estamos perante um fenómeno de vendas como este podemos duvidar da qualidade da obra, mas é impossível suprimir uma pontada de curiosidade e perguntar: porquê?

Fui ver… e simplesmente fui arrastada, como muitos milhares de outras mulheres, para as negras sombras de Christian Grey… talvez porque sou, pura e simplesmente, uma mulher…

A receita é antiga, uma rapariga pobre com personalidade, um homem rico arrogante e orgulhoso, ambos bonitos, uma paixão fatal, uma bonita história de amor. Acredito que as cenas de sexo criativas e escaldantes e principalmente a grande vulnerabilidade do Christian sejam os ingredientes que tornam o livro irresistível.

Não sou snobe nem hipócrita e por isso admito que adorei ler (e com certeza irei reler algumas vezes) os livros desta triologia… recomendo…

“Olivia levantou-se de um salto e foi buscar-me o blusão, que Grey lhe tirou das mãos antes de ela conseguir entregar-mo. Ele segurou-o, e eu, muito acabrunhada, enfiei os braços. Deixou ficar as mãos por um momento nos meus ombros. O contacto deixou-me sem ar. Se ele reparou na minha reação, não deixou transparecer nada. Com o longo dedo indicador, carregou no botão para chamar o elevador e ficámos ali à espera – eu muito desconfortável, ele muito senhor de si. As portas abriram-se e eu apressei-me a entrar, desesperada por fugir dali. Tinha mesmo de sair dali. Quando me virei para olhar para ele, ele estava a olhar para mim, com uma mão apoiada ao lado da porta do elevador. Ele era mesmo muito, muito atraente. Era enervante. 
- Anastasia – disse, a despedir-se.
- Christian – respondi. E por misericórdia as portas fecharam-se.”



Lua de papel

As Cinquenta Sombras de Grey – 547 páginas
As Cinquenta Sombras Mais Negras – 572 páginas 
As Cinquenta Sombras Livre – 621 páginas

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quarta-feira, 20 de março de 2013

O Caminho menos Percorrido ◙ M. Scott Peck


Nunca consigo esquecer a imensidão do cosmos e o quanto isso pode influenciar as nossas vidas independentemente da nossa vontade. 

É uma verdade que nunca vai mudar e por isso posso ter duas posturas: posso deixar que me atormente com tudo de mau que pode trazer ou posso relaxar, ter esperança e aproveitar o que traz de bom. 

Este livro fala de tudo isto de uma forma científica e muito humana e apresentando o trabalho que podemos fazer para encontrar essa paz. 

Deixo-vos um excerto escolhido pelo autor de The Prophet (Nova Iorque: Alfred A. Knopf, 1951), pp. 17-18.  

“Os teus filhos não são teus filhos. 
 São os filhos e as filhas do desejo da Vida por si própria. 
Vêm através de ti mas não de ti,
E embora estejam contigo, não te pertencem. 
Podes dar-lhes o teu amor, mas não os teus pensamentos, 
Porque eles têm os seus próprios pensamentos. 
Podes alojar-lhes os corpos mas não as almas. 
Porque as almas deles vivem na casa do amanhã, que tu não podes visitar, nem sequer em sonhos. 
Podes lutar por ser como eles, mas não tentes fazê-los ser como tu. 
Porque a vida não anda para trás nem espera pelo passado 
Tu és o arco a partir do qual são disparados os teus filhos como setas vivas. 
O arqueiro vê o alvo no caminho do infinito, e arqueia-te com a Sua força para que a Sua flecha possa ir longe veloz. 
Deixa que o teu arquear às mãos do arqueiro seja de satisfação; 
Porque assim como Ele ama a seta que voa, ama também o arco que é firme.” 

347 páginas 
Sinais de Fogo 

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quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Cairo Novo ⌂ NAGUIB MAHFOUZ


De 0 a 10…. 8

Sinopse:

Neste romance pleno de suspense de Naguib Mahfouz, um niilista ambicioso e amargo, uma estudante bela e pobre e um funcionário corrupto envolvem-se num ménage à trois condenado.

O Cairo dos anos 30 é palco de enormes desigualdades sociais e económicas. É também uma época de mudança, quando as universidades começam a abrir as portas às mulheres e filosofias revolucionárias oriundas da Europa agitam os debates entre os jovens. Mahgoub é um estudante ferozmente orgulhoso que está determinado a esconder dos seus amigos idealistas a sua pobreza e a sua falta de princípios. Quando se dá conta de que não há emprego para quem não tem conhecidos, concorda, desesperado, em fazer parte de um elaborado plano fraudulento. No entanto, o que começa como mera estratégia de sobrevivência depressa se transforma em muito mais para Mahgoub e a sua cúmplice, uma jovem de nome Ihsan igualmente desesperada. À medida que se movem na sofisticada alta sociedade, a sua frágil farsa começa a desintegrar-se e o terrível preço do pacto faustiano de Mahgoub torna-se claro…

Prémio Nobel de Literatura 1988

232 páginas

Livraria Civilização Editora

A Beleza e a Tristeza ₓ Yasunari Kawabata



De 0 a 10…. 7

Sinopse:

Aquilo que começa como uma reunião sentimental entre um Oki Toshio a envelhecer e Ueno Otoko, a artista reclusa, acaba por se transformar numa sinistra vingança erótica. Pois Keiko, a jovem misteriosa e intensa que é amante e discípula de Otoko, está determinada a vingar a humilhação passada pela mulher mais velha - mesmo que isso signifique utilizar a própria beleza como arma. Movendo-se imprevisivelmente entre ternura e obsessão, serenidade e selvajaria, A Beleza e a Tristeza, confirma a reputação de Kawabata como um moderno mestre japonês que pode transformar o apertar de um obi em algo de infinitamente sugestivo e perverso.

Prémio Nobel de Literatura 1968

192 páginas

Dom Quixote


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