quinta-feira, 7 de maio de 2015

Comboio Nocturno para Lisboa ► Pascal Mercier


Fico curiosa sobre o que terá estimulado um escritor nascido em Berna e que vive em Berlim a criar uma personagem tão profunda e estimulante como Amadeu de Prado.

Para mim foi interessante perceber a imagem romântica e envolvente que nós portugueses conseguimos transparecer. Está lá o fatal, a esperança, a saudade, o orgulho… num jeito tão português.

A musicalidade da Língua Portuguesa é tantas vezes comemorada e a luz… a luz de Lisboa, essa não passa mesmo despercebida.

“Será que existe um segredo sob a superfície da actividade humana? Ou serão as pessoas tal e qual como se manifestam nos seus actos tão explícitos?
Pode parecer estranho, mas em mim a resposta muda com a luz que cai sobre a cidade e o Tejo. Se for a luz mágica de um dia vibrante de Agosto, capaz de produzir sombras claras e de um recorte nítido, a ideia de uma profundidade humana subjacente e oculta parece-me estranha como um fantasma curioso e, de algum modo enternecedor, qualquer coisa como uma miragem que se materializa quando me ponho a olhar fixamente as ondas que cintilam nessa mesma luz.”

Coisas nossas que nós não vemos porque estamos cá dentro. É bonito vê-las escritas por alguém que não é de cá.

As divagações que Pascal Mercier nos apresenta de Amadeu de Prado são extremamente ricas. São pensamentos e preocupações que estão presentes em cada um de nós mas que são escritos de uma forma tão clara, fluida e talvez até um pouco filosófica que se torna um prazer enfrentá-los.

“Ou trata-se do desejo – um desejo evanescente e patético – de voltar àquele ponto da minha vida em que teria podido optar por outra direcção completamente diferente daquela que acabou por fazer de mim aquilo que sou hoje?
Há algo de estranho neste desejo, um sabor a paradoxo e extravagância lógica. E isto porque aquele que o deseja já não é aquele outro que um dia, livre ainda de toda a carga do futuro, se viu perante a bifurcação dos caminhos. Pelo contrário, aquele que anseia pelo retorno, tentado nostalgicamente revogar o irrevogável, está marcado por toda a carga de um futuro que, ao ser percorrido, se tornou passado. E tentaria revogá-lo se não o tivesse percorrido e sofrido?”    

D. Quixote

423 páginas

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Triologia o Século ╠ Ken Follet




Começando pelo autor, Ken Follet, só posso afirmar que se trata de um grande escritor e um excelente contador de histórias. Se não o fosse não conseguiria agarrar o leitor durante as mais de 3000 páginas desta triologia com assuntos tão pouco interessantes, ou digamos de forma diferente, tão pouco populares como a história e a política tornando-os sim verdadeiramente interessantes.

Para aqueles, nos quais eu me incluo obviamente, que sempre tiveram uma enorme dificuldade em viver as aulas de história como um momento estimulante e surpreendente, acredito que a leitura d’”A Queda dos Gigantes” d’”O Inverno do Mundo” e do “No Limiar da Eternidade” aumentará a chamada cultura geral sobre o século passado de uma forma bastante agradável.

A apresentação do nosso passado é feita ao longo da vida de três gerações de algumas famílias que nos conquistam pela sua autenticidade. As guerras mundiais não são descritas, são vividas. Os novos modelos de governação assim como as novas leis não são apresentadas, são conquistadas. Nós não ficamos apenas a saber o que aconteceu, ficamos a saber também como aconteceu e porque aconteceu.

É claro que é a verdade de Ken Follet sobre toda a história que, se não me engano, é a verdade de alguém que acredita na paz e defende a democracia, mas não existem verdades completamente imparciais e confesso que me identifico bastante com esta.

Por outro lado é, na minha opinião, inegável o serviço que esta obra pode fazer no sentido de mostrar: 1. o quanto as posições radicais são perigosas, porque o foram efetivamente no passado; 2. que precisamos de ter cuidado e responsabilidade nas opções socais/cívicas/comunitárias que escolhemos e daí a importância da política; 3. que foi possível acabar com duas grandes guerras e que não nos pode interessar de todo entrar no ciclo vicioso.

Pessoalmente sou fanaticamente céptica relativamente a todo o tipo de fanatismo. O mundo é demasiadamente grande para existir uma só verdade absoluta e por outro lado é demasiadamente pequeno para acharmos que conseguimos criar um espaço rodeado de muros onde essa verdade absoluta pode viver eternamente.

Esta é a primeira vez que escrevo sobre um livro (neste caso 3) quando ainda não o acabei, mas independentemente do que estiver escrito nas restantes 600 páginas não duvido que mereça estas palavras.

“O jovem pediu um passaporte da Alemanha Ocidental, que era concedido automaticamente aos fugitivos.
(…)
- Vivíamos ambos no Leste. Ela ainda lá está, mas eu fugi.
- Como?
- Derrubei a barreira com uma carrinha.
- Foste tu? Li isso nos jornais. Eh, pá, que fixe! Mas por que diabo não trouxeste a miúda?
- Ela não compareceu ao encontro.
- É pena. Queres uma bebida? – Danni foi à parte de trás do bar.
- Obrigado. Gostava de lá voltar por causa dela, mas agora sou procurado por assassínio.
Danni tirou duas imperiais. - Os comunistas fizeram uma grande história da tua fuga. Dizem que és um criminoso violento.
Tinham igualmente pedido a sua extradição. O governo da Alemanha Ocidental recusara, afirmando que o guarda alvejara um cidadão alemão que queria apenas passar de uma rua de Berlim para outra. A responsabilidade da morte pertencia ao regime não eleito da Alemanha de Leste que aprisionava ilegalmente a sua população.”


Editorial Presença
Livro 1 – A Queda dos Gigantes
Livro 2 – O Inverno do Mundo
Livro 3 – No Limiar da Eternidade

sábado, 12 de outubro de 2013

A possibilidade de uma ilha + Michel Houellebecq


Sobre o autor limito-me a corroborar a opinião de um grande amigo meu e da opinião pública de que se trata de um negativista, estando as suas características de provocador, fatalista e pessimista presentes neste livro.

O livro apresenta-nos a narrativa de vida de Daniel1 que vai sendo lida e complementada por dois dos seus clones Daniel24 e Daniel25 que existem 1000 anos depois. Daniel24 e Daniel25 são já chamados neo-humanos devido a algumas alterações físicas que foram sendo feitas com o objectivo de melhorar a autonomia e sustentabilidade da espécie acabando por retirar alguma da “angustia” do ser humano.

Confesso que não me identifico com posturas negativistas, reconheço que existe uma luta constante entre o mal e o bem, provocada essencialmente pelo ser humano, mas no fundo tenho a esperança que no final o bem vencerá, aliás, na minha opinião, o bem vem vencendo desde sempre, basta olharmos para aquilo que fomos e que somos.
No entanto, gosto de ler livros futuristas que consigam apresentar uma teoria para a nossa evolução que tenha, no mínimo, um fio condutor.

Mas voltando á obra… Michel Houellebecq apresenta-nos a humanidade dos nossos dias de uma forma crua e nada bonita, não deixa de ser realista mas é duvidável a generalização que pretende transmitir. Em certos momentos aparecem raios de luz no meio de uma descrição tão cinzenta mas, contra minha vontade, acabam por desaparecer algumas páginas depois.
A humanidade e neo-humanidade que existem um milénio depois, estão imensamente separados física, psicológica e comportamentalmente. Não vou adiantar muito sobre esse futuro longínquo, uma vez que vai sendo desvendado ao longo do livro e suscita a nossa curiosidade mas não resisto a colocar um pedaço das divagações de Daniel25:

“Por vezes, de noite, levanto-me para observar as estrelas. Transformações climáticas e geológicas de grande extensão remodelaram a fisionomia da região, como a da maior parte das regiões do mundo, durante os dois últimos milénios; o brilho e a posição das estrelas, o seu agrupamento em constelações são sem dúvida os únicos elementos naturais que, desde o tempo de Daniel1, não sofreram nenhuma transformação. Acontece-me, quando à noite observo o céu, pensar nos Eloim, nessa estranha crença que viria afinal, por portas travessas, a desencadear a Grande Transformação. Daniel1 revive em mim, o seu corpo sofre uma nova encarnação, os seus pensamentos são os meus, as suas recordações as minhas; a sua existência prolonga-se realmente em mim, bem mais do que qualquer homem alguma vez sonhou prolongar-se através da sua descendência. No entanto, a minha própria vida, como muitas vezes penso, está muito longe de ser a que ele teria gostado de viver.”


393 páginas
Dom Quixote

segunda-feira, 1 de abril de 2013

As Cinquenta Sombras ᴥ E. L. James



Bem… As 50 sombras de Grey…

Quando estamos perante um fenómeno de vendas como este podemos duvidar da qualidade da obra, mas é impossível suprimir uma pontada de curiosidade e perguntar: porquê?

Fui ver… e simplesmente fui arrastada, como muitos milhares de outras mulheres, para as negras sombras de Christian Grey… talvez porque sou, pura e simplesmente, uma mulher…

A receita é antiga, uma rapariga pobre com personalidade, um homem rico arrogante e orgulhoso, ambos bonitos, uma paixão fatal, uma bonita história de amor. Acredito que as cenas de sexo criativas e escaldantes e principalmente a grande vulnerabilidade do Christian sejam os ingredientes que tornam o livro irresistível.

Não sou snobe nem hipócrita e por isso admito que adorei ler (e com certeza irei reler algumas vezes) os livros desta triologia… recomendo…

“Olivia levantou-se de um salto e foi buscar-me o blusão, que Grey lhe tirou das mãos antes de ela conseguir entregar-mo. Ele segurou-o, e eu, muito acabrunhada, enfiei os braços. Deixou ficar as mãos por um momento nos meus ombros. O contacto deixou-me sem ar. Se ele reparou na minha reação, não deixou transparecer nada. Com o longo dedo indicador, carregou no botão para chamar o elevador e ficámos ali à espera – eu muito desconfortável, ele muito senhor de si. As portas abriram-se e eu apressei-me a entrar, desesperada por fugir dali. Tinha mesmo de sair dali. Quando me virei para olhar para ele, ele estava a olhar para mim, com uma mão apoiada ao lado da porta do elevador. Ele era mesmo muito, muito atraente. Era enervante. 
- Anastasia – disse, a despedir-se.
- Christian – respondi. E por misericórdia as portas fecharam-se.”



Lua de papel

As Cinquenta Sombras de Grey – 547 páginas
As Cinquenta Sombras Mais Negras – 572 páginas 
As Cinquenta Sombras Livre – 621 páginas

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quarta-feira, 20 de março de 2013

O Caminho menos Percorrido ◙ M. Scott Peck


Nunca consigo esquecer a imensidão do cosmos e o quanto isso pode influenciar as nossas vidas independentemente da nossa vontade. 

É uma verdade que nunca vai mudar e por isso posso ter duas posturas: posso deixar que me atormente com tudo de mau que pode trazer ou posso relaxar, ter esperança e aproveitar o que traz de bom. 

Este livro fala de tudo isto de uma forma científica e muito humana e apresentando o trabalho que podemos fazer para encontrar essa paz. 

Deixo-vos um excerto escolhido pelo autor de The Prophet (Nova Iorque: Alfred A. Knopf, 1951), pp. 17-18.  

“Os teus filhos não são teus filhos. 
 São os filhos e as filhas do desejo da Vida por si própria. 
Vêm através de ti mas não de ti,
E embora estejam contigo, não te pertencem. 
Podes dar-lhes o teu amor, mas não os teus pensamentos, 
Porque eles têm os seus próprios pensamentos. 
Podes alojar-lhes os corpos mas não as almas. 
Porque as almas deles vivem na casa do amanhã, que tu não podes visitar, nem sequer em sonhos. 
Podes lutar por ser como eles, mas não tentes fazê-los ser como tu. 
Porque a vida não anda para trás nem espera pelo passado 
Tu és o arco a partir do qual são disparados os teus filhos como setas vivas. 
O arqueiro vê o alvo no caminho do infinito, e arqueia-te com a Sua força para que a Sua flecha possa ir longe veloz. 
Deixa que o teu arquear às mãos do arqueiro seja de satisfação; 
Porque assim como Ele ama a seta que voa, ama também o arco que é firme.” 

347 páginas 
Sinais de Fogo 

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quarta-feira, 18 de abril de 2012

O Cairo Novo ⌂ NAGUIB MAHFOUZ


De 0 a 10…. 8

Sinopse:

Neste romance pleno de suspense de Naguib Mahfouz, um niilista ambicioso e amargo, uma estudante bela e pobre e um funcionário corrupto envolvem-se num ménage à trois condenado.

O Cairo dos anos 30 é palco de enormes desigualdades sociais e económicas. É também uma época de mudança, quando as universidades começam a abrir as portas às mulheres e filosofias revolucionárias oriundas da Europa agitam os debates entre os jovens. Mahgoub é um estudante ferozmente orgulhoso que está determinado a esconder dos seus amigos idealistas a sua pobreza e a sua falta de princípios. Quando se dá conta de que não há emprego para quem não tem conhecidos, concorda, desesperado, em fazer parte de um elaborado plano fraudulento. No entanto, o que começa como mera estratégia de sobrevivência depressa se transforma em muito mais para Mahgoub e a sua cúmplice, uma jovem de nome Ihsan igualmente desesperada. À medida que se movem na sofisticada alta sociedade, a sua frágil farsa começa a desintegrar-se e o terrível preço do pacto faustiano de Mahgoub torna-se claro…

Prémio Nobel de Literatura 1988

232 páginas

Livraria Civilização Editora

A Beleza e a Tristeza ₓ Yasunari Kawabata



De 0 a 10…. 7

Sinopse:

Aquilo que começa como uma reunião sentimental entre um Oki Toshio a envelhecer e Ueno Otoko, a artista reclusa, acaba por se transformar numa sinistra vingança erótica. Pois Keiko, a jovem misteriosa e intensa que é amante e discípula de Otoko, está determinada a vingar a humilhação passada pela mulher mais velha - mesmo que isso signifique utilizar a própria beleza como arma. Movendo-se imprevisivelmente entre ternura e obsessão, serenidade e selvajaria, A Beleza e a Tristeza, confirma a reputação de Kawabata como um moderno mestre japonês que pode transformar o apertar de um obi em algo de infinitamente sugestivo e perverso.

Prémio Nobel de Literatura 1968

192 páginas

Dom Quixote


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domingo, 4 de dezembro de 2011

A Obra Reunida ᵜ JUAN RULFO

Não me atrevo sequer a comentar este tesouro. Deixo-vos o que vem escrito na lombada para aguçar a vossa curiosidade.

“Juan Rulfo (México, 1917-1986) é talvez o autor sul-americano mais comentado, elogiado e imitado do século XX. Toda a sua obra literária conhecida, que reunida pouco ultrapassa as 300 páginas, é considerada como fundadora, origem de uma nova forma de literatura, que deu lugar a escritores como Gabriel Garcia Márquez, um dos seus mais famosos e reconhecidos devedores. De Pablo Neruda a Carlos Fuentes, de Octávio Paz a Jorge Luis Borges e Juan Carlos Onetti, abundam os testemunhos de admiração dos seus pares e o assombro e desconcerto da crítica.

Em contraste com este enorme rumor a rodear a escassa obra de Rulfo, está o silêncio em que desapareceu o escritor desde a publicação, em 1955, de Pedro Parámo e até à sua morte, em Janeiro de 1986. Silêncio este apenas interrompido pela revelação esporádica, por parte de jornalistas, da iminente “saída” de uma nova novela, La cordillera, que acabou por ser tornar mítica. As tentativas de explicar esta prematura interrupção da escrita de um dos mais marcantes escritores contemporâneos no auge de sua fama contribuiu para aprofundar a «lenda Rulfo», não faltando comparações com a de Rimbaud.

Este livro oferece ao leitor português, num único volume, o essencial da Obra de Juan Rulfo. Os livros que o compõem, «O llano em chamas» (1953), «Pedro Páramo» (1955), e a novela póstuma «O galo de ouro» (1980), foram revistos tendo em conta a sua edição crítica mais recente.”

366 páginas

Cavalo de Ferro

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O Senhor dos Anéis ʘ JRR Tolkin


O mundo encontra-se dividido em duas partes: a daqueles que já leram O Senhor dos Anéis e a daqueles que o vão ler. (Sunday Times)

Poderá não ser bem verdade, mas esta afirmação mostra a grandiosidade desta obra.

Como muitas vezes me acontece, sinto-me muito pequenina para comentar as três partes que constituem O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel; As Duas Torres e O Regresso do Rei.

Na edição que possuo, como um tesouro, esta obra tem um total de 1301 páginas em letras bem pequenas, que contam a história da destruição de um anel que pode trazer a escuridão ao mundo…

… e esse mundo, repleto de hobbits, elfos, fantásticas criaturas e os simples humanos, está construído segundo a imaginação de JRR Tolkien que no mínimo não se esqueceu de nenhum pormenor para preencher todos os espaços com beleza, magia, graciosidade, força, imponência e grandeza.

Confesso que vi o filme primeiro e por isso sou da opinião de que as personagens estão bem escolhidas e que responde às descrições feitas no livro, mas sem dúvida que a obra é muito mais completa e há pormenores no filme que só os entendemos se lermos o livro.

Admito que não é muito fácil lê-lo… é muito descritivo e muito extenso…

Mas eu amo o fantástico, mundos paralelos, mundos imaginários, mundos mágicos que nos levam para outras paragens… li até ao fim e é impossível de avaliar…

“Três anéis para os Reis Elfos debaixo do Céu,

Sete para os Senhores dos Anões nos seus palácios de pedra,

Nove para os Homens Mortais condenados a morrer,

Um para o Senhor das Trevas no seu negro trono

Na Terra de Mordor onde moram as Sombras.

Um anel para todos dominar, um anel para os encontrar,

Um anel para a todos prender e nas trevas os reter

Na Terra de Mordor onde moram as Sombras.”


Publicações Europa-América

A Irmandade do Anel – 466 páginas download

As Duas Torres – 385 páginas download

O Regresso do Rei – 450 páginas download



domingo, 12 de junho de 2011

DIÁRIO Ю Obras de Sebastião da Gama

Adorei…

Fez-me sentir tão pequenina… Eu que também sou professora, que também desejo que os meus alunos me ouçam e acompanhem, admito que não tenho metade da paciência e paixão de Sebastião da Gama tinha pela arte de ensinar:

Primeira lei: acreditar no aluno. Se o campo é bom e se a semente é bem lançada, até uma inicial vontade de enganar a contraria, agindo no espírito do aluno a nossa boa-fé.

Ora tudo isto vem a propósito de aulas más. Aulas más são as que os rapazes não querem ouvir. Mas então – poderia eu defender-me – que culpa temos nós de os rapazes serem barulhentos, desinquietos e desatentos? É verdade que às vezes a culpa não é nossa: é toda deles, a quem mais apetecia estar na rua que na escola. Mas para isso justamente é que serve o bom professor – e o meu drama resulta de que a mim só me interessa ser bom professor. Ser bom professor consiste em adivinhar a maneira de levar todos os alunos a estarem interessados; a não se lembrarem de que lá fora é melhor.”

Cada vez me apetece menos classificar os rapazes, dar-lhes notas, pelo que eles «sabem», Eu não quero (ou dispenso) que eles metam coisas na cabeça; não é para isso que eu dou aulas. O saber – diz o povo – não ocupa lugar; pois muito bem; que eles saibam, mas que o saber não ocupe lugar, porque o que vale, o que importa (e para isso pode o saber contribuir, só contribuir) é que eles se desenvolvam, que eles cresçam, que eles saibam «resolver», que eles possam perceber.

Mas até mesmo Sebastião tinha as excepções… ficou mais humano aos meus olhos:

Mas há casos em que as teorias têm de ser postas de parte. Com o Artur, é o acontece. Já experimentei tudo: zangar-me, mostrar que não passa de um palhaço, pedir-lhe em nome da minha saúde, de modo a comovê-lo, que tenha juízo. Tudo inútil.

E não posso deixar de referir uma grande vantagem… o sonho de muitos professores:

Graças a Deus e a outras pessoas inteligentes, não há agora, como houve até há meses, um programa rígido de Português que temos, quer queiramos, quer não, de impor aos nossos rapazes

Atrevo-me a identificar algumas das minhas características:

Eu nem sei como aprendi a gostar de ler. Talvez por uma predisposição interior, uma fatalidade.”

Ora aqui têm uma coisa com que o aluno se não irrita: que o chamem de número. É a tal hereditariedade a que me referi. Em Setúbal, onde tive no ano passado coisa de duzentos alunos, eu sabia a certa altura o nome de todos eles;

E por fim, duas frases… a grande bondade de Sebastião:

O que eu quero é que sejam felizes

Bendito seja Deus, por eu ser professor!

Edições Arrábida

261 páginas


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quarta-feira, 8 de junho de 2011

Memorial do Convento ۝ José Saramago

A segunda colaboração deste fantástico blog é da minha cara amiga Petra Aurora Fernandes.

Muito resumidamente… a Petra é uma pessoa muito colorida, que coloca profissionalismo e paixão em tudo aquilo que faz e que viaja na maionese quando tem que falar aos seus alunos, dos grandes escritores e das suas grandes obras.

Saramago é um grande escritor e o Memorial do Convento é uma grande obra, que a Petra, como professora de Língua Portuguesa que é, descreve plenamente...




By Petra Fernandes:

Memorial do Convento, de José Saramago é uma obra em três vertentes: a social, a histórica e a ficcional.

Saramago, nesta obra recorre a um momento da História e, em forma de narração alegórica, propõe uma reflexão sobre esses acontecimentos, sobre o comportamento e o destino humano e sobre um mundo onde há a magia do inexplicável.

O facto de existirem várias personagens que realmente existiram e que se misturam com personagens fictícias dá-nos a sensação de que esta obra se dirige à crítica da maior parte das personagens reais e à valorização das personagens fictícias que, não tendo existido, representam o povo (Baltasar e Blimunda).

Saramago descreve detalhadamente datas, locais e até mesmo horas de alguns acontecimentos históricos, mas o fio condutor da história é o amor de Baltasar e Blimunda e a construção da passarola. Baltasar e Blimunda vivem um amor sem regras e sem limites, instintivo e natural. Não há discurso amoroso, as palavras tornam-se desnecessárias quando o silêncio é rico de significação, quando entre os dois há apenas amor, paixão, gozo, cumplicidade, entendimento perfeito.

Blimunda é um elemento mágico não explicado, pois com os seus poderes mágicos «vê» as vontades, «olha» as pessoas por dentro e esta faceta de vidente confere-lhe um poder especial, que, inclusive, fará a passarola voar. A passarola constitui um símbolo de liberdade, mas igualmente de luz, de guia. Com a «recolha das vontades», combustível necessário para levantar voo, percebemos que, sem o querer humano, nenhum progresso científico, por si só, faz avançar o mundo.

No final da obra, a recolha da «vontade» de Baltasar por Blimunda marca a junção destes dois seres para sempre, o que demonstra que «o amor existe sobre todas as coisas».

Nesta obra Saramago pretende assim negar a ideia de que D. João V «ergueu» o Convento de Mafra, mas sim dar esse mérito ao povo e às vidas que por aquele convento foram sacrificadas.

Desejo a todos uma boa leitura, pois é uma obra muito rica e interessante! Não se vão arrepender «Vale sempre a pena se a alma não é pequena»

Caminho

359 páginas

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domingo, 22 de maio de 2011

Kafka à Beira-Mar ۞ Haruki Murakami

Este foi o primeiro livro que li de Haruki Murakami e devo dizer que ficou em mim uma enorme vontade de repetir. Já li o livro há vários anos e por isso apenas recordo as linhas gerais da história e de algumas sensações que me transmitiu.

Mas é exactamente isso que eu gosto de fazer, comentar as sensações que um livro me provoca.

Este escritor, adora contar histórias estranhas com personagens ainda mais estranhas, ao longo do livro fui tentado encontrar uma linha orientadora, fui tentando perceber o porque de algumas cenas… mas admito que em alguns momentos foi difícil…

O surreal é uma das suas ferramentas, que sabe usar com mestria e sem limites, o velho Nakata perdeu a sua inteligência e ganhou a capacidade fantástica de falar com gatos, durante um acidente que sofreu na sua infância; existem chuvas de sardinhas, cavalinhas e sanguessugas e até o Coronel Sanders do KFC e Johnie Walker do Scotch Whisky fazem a sua aparição.

Quanto a Kafka Tamura, é um jovem de 15 anos, cheio de dúvidas e muito solitário, o livro apresenta a sua busca pelo eu com assassinatos e cenas de sexo à mistura.

Murakami choca com a sua falta de limites, mas a escrita é tão magnetizante que fiquei agarrada ao livro até o terminar.

" No dia seguinte, quando - acreditem ou não - desatou a chover sardinha e cavala numa zona do bairro de Nakano, o jovem policia ficou branco como um lençol. Sem qualquer aviso prévio, caíram das nuvens sobre a terra qualquer coisa como duzentas sardinhas e cavalas. O grosso dos peixes ficou esmagado e feito numa papa ao embaterem no chão, mas alguns sobreviveram, aos saltos e a estrebuchar pelas ruas, em pleno centro. O peixe tinha todo o ar de ser fresco e ainda cheirava a mar. Os peixes atingiram pessoas, carros e telhados. (...) Uma quantidade de peixes a caírem do céu como se fosse granizo - ora aí estava uma cena verdadeiramente apocalíptica."

590 páginas

Casa das Letras

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site Haruki Murakami

terça-feira, 26 de abril de 2011

Predadores Ϫ Pepetela


A perspectiva de África que existe na Europa é no mínimo muito incompleta, para não dizer errada. Agora que vivo em São Tomé percebo que o caminho para África não passa pelas ofertas despropositadas de dinheiro, comida, roupa ou mesmo material escolar. A simples dádiva deve ser acompanhada de uma organização responsável e coerente.

Desde que aqui cheguei que sou cada vez mais exigente e aceito cada vez menos a falta de condições e meios para justificar os atrasos e o incumprimento das tarefas. É óbvio que eu sei que a falta de comida, a falta de energia, o calor sufocante, os baixíssimos ordenados são factores que condicionam a vontade de trabalhar, mas se os meus alunos algum dia quiserem sair do pequeno mundo a que têm acesso, têm que conseguir passar por cima disso tudo e de muito mais.

Este é efectivamente um continente de desigualdades que Pepetela descreve, usando o exemplo de Angola no livro “Predadores”.

A escrita é simples e directa, as várias vidas presentes no livro vão saltando do passado para o presente ou futuro, de forma a completar a evolução da família Caposo e das pessoas mais chegadas a ela.

Estão retratados os vários escalões sociais, as vantagens e os esquemas dos mais altos, as grandes privações a as lutas diárias dos mais baixos. De tudo o que é apresentado e existe o que para mim é mais injusto é falta de oportunidades.

“- Continuas então o mesmo comunista.

- Nunca fui, não sabia muito bem o que isso era no fundo. Julgava ser e julgava saber. Aliás, proclamava isso aos quatro ventos. Só mais tarde descobri, aquele comunismo que eu seguia, aquelas ideias generosas de todos iguais e ninguém acima do outro, não existia em nenhuma parte do mundo, era tudo uma tremenda mentira. No entanto, as generosas ideias de solidariedade para com os outros, não pretender explorar ninguém, lutar para que todos os angolanos tenham oportunidades semelhantes na vida independentemente do que foram ao pais, essas ideias ainda são as minhas. Se isso é comunismo, tudo bem, assumo. Mas pode ter a certeza, não é aquele que alguns pretendem impor aos povos pela força. Por isso não me ofende tratando-me de comunista.”

Dom Quixote

383 página