terça-feira, 15 de junho de 2010

a solidão dos números primos ÷ paolo giordano

Pela forma como está escrito e pela história interessante que apresenta é impossível não ler este livro de uma assentada.

Mattia e Alice passaram, cada um deles na sua infância, por uma situação traumatizante que deixou uma marca irreversível. As suas vidas ficaram fortemente condicionadas por essa situação e quando se conhecem sentem que partilham da mesma solidão, do mesmo silêncio, do mesmo vazio…

Auto-mutilação, anorexia, homossexualidade e bulling aparecem de forma assustadoramente natural na adolescência destes jovens. A perspectiva apresentada por Paolo é interessante uma vez que não se procuram soluções para estes problemas apenas se apresentam vidas que vivem para além deles.

A Matemática aparece de forma atraente no título e na vida de Mattia, funcionando como um refugio e preenchendo-a quase por completo.

“Os números primos apenas são divisíveis por 1 e pelo próprio número. Estão no lugar que lhes é próprio na infinita série dos números naturais, esmagados como todos entre dois, mas um passo mais além relativamente aos outros. São números desconfiados e solitários e, por isso, Mattia achava-os maravilhosos. Por vezes achava que tinham ido parar por engano àquela sequência, que tinham ficado lá aprisionados como pequeninas pérolas num colar. Outras vezes, ao invés, desconfiava que também eles gostassem de ser como os demais, apenas uns números quaisquer, mas que por algum motivo não haviam sido capazes. O segundo pensamento surgia-lhe sobretudo à noite, no emaranhado caótico de imagens que antecede o sono, quando a mente está demasiado débil para mentir a si mesma.”

Bertrand Editora

265 páginas


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terça-feira, 8 de junho de 2010

DESERTO ŧ J. M. G. LE CLÉZIO


Um livro duro e brutal que nos faz sentir, através das suas ricas e excelentes descrições, o quanto o deserto é impiedoso e cruel mas ao mesmo tempo profundamente marcante e viciante.

A intensidade do sol, a força do vento e a beleza da noite são as características do deserto que mais castigam mas ao mesmo tempo fascinam as personagens deste livro.

Nour e Lalla são dois jovens, descendentes da mesma tribo, separados por várias décadas. Ao longo da sua infância sofrem algumas privações iguais e outras diferentes, mas ambos constroem uma ligação imensa com o grande mar de areia.

Nour percorre o deserto seguindo alguém que venera à procura “de uma terra, de um rio, de um poço onde pudessem instalar as suas tendas e armar os currais para as ovelhas”.

Lalla viu o pior de Marselha e mesmo assim conseguiu conquistar o seu lugar ao sol… mas o sol q ela queria não era esse, era o mesmo que iluminava Hartani…

“À frente deles, a terra muito plana estendia-se como o mar, cintilante de sal. Ondulava, criava as suas cidades brancas com muralhas magníficas, com cúpulas que rebentavam como bolhas. O sol queimava-lhes as caras e as mãos, a luz causava vertigem, quando as sombras dos homens são iguais a poços sem fundo.

Todas as tardes, os lábios sangrentos procuravam a frescura dos poços, a lama salobra das ribeiras alcalinas. Depois a noite fria abraçava-os, quebrava-lhes os membros e a respiração, punha-lhes um peso na nuca. Não havia fim para a liberdade, ela era tão vasta como a extensão da terra, bela e cruel como a luz, doce como os olhos de água.”

Prémio Nobel de Literatura 2008

Dom Quixote

312 páginas

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quinta-feira, 27 de maio de 2010

Siddhartha - Hermann Hesse


By Rita Viegas:

Quantos de nós não nos deparámos, inevitavelmente, com questões existenciais? Quantos não procuraram, provavelmente em vão, um significado ou uma explicação para a nossa razão de viver? Quantos não se questionaram, pelo menos uma vez na vida, com uma destas perguntas, que assombram o ser humano desde os primórdios da sua existência?

Siddhartha, um romance passado na Índia no século VI a.C., leva-nos a acompanhar a viagem do próprio Siddhartha em busca destas respostas, ao longo de toda a sua vida.

A história inicia-se ainda na sua juventude, com a partida de casa dos pais e de todo o conforto que esta representa para ir viver com os Samanas, um grupo de seguidores do Buda que vive afastado dos privilégios e comodismos da vida, acreditando que assim poderá atingir a sabedoria e felicidade supremas. Mas, passado algum tempo, Siddhartha apercebe-se que apesar de ter aprendido a jejuar, esperar e pensar, de ter ouvido as doutrinas dos considerados grandes sábios e de ter seguido todos os seus ensinamentos, nunca poderá atingir a verdadeira sabedoria a não ser que ele próprio viva e experimente tudo o que a vida tem para oferecer. Parte, então, para a cidade, onde, apesar do bom motivo inicial, acaba por perder-se nos vícios citadinos, no vinho e nos jogos de azar, quase esquecendo o propósito da sua viagem. Não obstante, numa idade já avançada, a sua vida ganha um novo rumo e este passa a viver novamente isolado dos privilégios e vícios da sociedade, retornando a sua procura.

Apesar de este ser um livro que é por muitos adorado por ser uma espécie de guia espiritual, já que a história é narrada sobretudo em função dos pensamentos e reflexões da personagem ao longo da sua busca pela plenitude espiritual, para mim foi um livro que me marcou de alguma forma por abordar uma série de questões de uma maneira bela e simples, como as anteriormente referidas, mostrando-nos que estas são universais.

Um outro aspecto que muito me agradou no livro foi a sua intemporalidade, já que, apesar de a história se passar no século VI a.C. e de ter sido escrita em 1922, a forma como é narrada e as questões que aborda levam-nos a acreditar que podia perfeitamente passar-se hoje em dia, sofrendo apenas algumas alterações no cenário.

Este é um livro que, apesar de pequeno e de ter sido escrito de uma forma aparentemente simplista, apresenta uma profundidade fora do comum que nos leva a uma reflexão sobre o propósito da nossa existência, ainda que não transmita uma resposta para este problema.

“Tudo isto são coisas, coisas que nós podemos amar. Mas não posso amar palavras. É por isso que não aprecio as doutrinas, não têm dureza ou moleza, não têm cores, não têm cheiro, não têm gosto, nada têm senão palavras. Talvez seja isso que te impede de encontrares a paz, talvez sejam as palavras em excesso. Porque também libertação e virtude, também Samsara e Nirvana são meras palavras. Nada existe que seja o Nirvana: apenas existe a palavra Nirvana.”

Prémio Nobel de Literatura 1946

Casa das letras

156 páginas



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