terça-feira, 27 de julho de 2010

O ESTRANGEIRO • A QUEDA • ALBERT CAMUS


Em ambos os romances as personagens principais são homens com uma ausência quase total de sentimentos “nobres” e princípios morais, que não seguem o modelo normal da sociedade em que estão inseridos. As duas personagens foram propositadamente colocadas no limitar entre o bem e o mal e fiquei com a sensação que esse é o pior local para se estar.

N’O Estrangeiro temos uma personagem apática, cujas necessidades físicas se sobrepõem a todas as outras na maioria das situações. É como se a personagem vivesse “no ar”, noutro mundo, à parte de tudo o que a rodeia. Deixa-se levar pelas oportunidades e pelas pessoas que conhece sem fazer qualquer juízo de valor. Acaba por ser condenada pelo crime que cometeu e por todas as atitudes tomadas em sociedade.

N’A Queda a personagem que enche as páginas do livro é de uma complexidade interessante. Alguém que passa por várias experiências de vida sem mudar a sua postura evasiva e extremamente egoísta. Constrói uma teoria sobre a vida muito bem estruturada mas baseada apenas nas suas observações e vivencias. Encontra o seu lugar, separado de toda a sociedade, para onde arrasta quem cai na sua teia.

Albert Camus não perdeu uma oportunidade para manifestar o absurdo da existência, foi sem dúvida um grande escritor que retratou angústias da sua época e os dilemas e conflitos já observados por escritores que o precederam, tal como Franz Kafka e Dostoiévski.

Prémio Nobel de Literatura 1957

Livros do Brasil

A Queda: 116 páginas

O Estrangeiro: 118 páginas


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quarta-feira, 30 de junho de 2010

sombras queimadas ж Kamila Shamise


“Depois, ele e Harry colocaram lado a lado as histórias que cada um conhecia da sua família. Histórias de oportunidades recebidas (Sajjad encontrou, através de Konrad, uma maneira de sair do mundo restrito do negócio da sua família), lealdade oferecida (Hiroko recusou afastar-se de Konrad quando o mundo dela o transformou num inimigo), abrigo providenciado (por três vezes Ilse ofereceu a Hiroko um lar: em Deli, Carachi, Nova Iorque), força transferida (Ilse nunca teria deixado a vida que odiava se não fosse por causa de Hiroko), desastre omitido (James e Ilse asseguraram que Sajjad e Hiroko estivessem bem distantes da carnificina da Partilha). E – esta parte Raza e Harry não disseram em voz alta – segundas oportunidades (de serem um pai melhor, um filho melhor).”

A história dos Weiss-Burton e Tanaka-Ashraf aparecem lado a lado tal como o excerto o demonstra. São vidas intensas cheias de opções, alianças e amor.

O romance é viciante porque para além das interessantes personagens que contém retrata a destruição provocada pela bomba atómica de Nagasáqui, a agitação de uma Índia que se estava a dividir, o espírito americano renascido pelo 11 de Setembro e a beleza perdida do Afeganistão por causa da guerra.

Kamila Shamise fez-me gostar de quase todas as personagens e torcer pela felicidade delas…

Mas… não gostei do fim…

437 páginas

Civilização Editora

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terça-feira, 15 de junho de 2010

a solidão dos números primos ÷ paolo giordano

Pela forma como está escrito e pela história interessante que apresenta é impossível não ler este livro de uma assentada.

Mattia e Alice passaram, cada um deles na sua infância, por uma situação traumatizante que deixou uma marca irreversível. As suas vidas ficaram fortemente condicionadas por essa situação e quando se conhecem sentem que partilham da mesma solidão, do mesmo silêncio, do mesmo vazio…

Auto-mutilação, anorexia, homossexualidade e bulling aparecem de forma assustadoramente natural na adolescência destes jovens. A perspectiva apresentada por Paolo é interessante uma vez que não se procuram soluções para estes problemas apenas se apresentam vidas que vivem para além deles.

A Matemática aparece de forma atraente no título e na vida de Mattia, funcionando como um refugio e preenchendo-a quase por completo.

“Os números primos apenas são divisíveis por 1 e pelo próprio número. Estão no lugar que lhes é próprio na infinita série dos números naturais, esmagados como todos entre dois, mas um passo mais além relativamente aos outros. São números desconfiados e solitários e, por isso, Mattia achava-os maravilhosos. Por vezes achava que tinham ido parar por engano àquela sequência, que tinham ficado lá aprisionados como pequeninas pérolas num colar. Outras vezes, ao invés, desconfiava que também eles gostassem de ser como os demais, apenas uns números quaisquer, mas que por algum motivo não haviam sido capazes. O segundo pensamento surgia-lhe sobretudo à noite, no emaranhado caótico de imagens que antecede o sono, quando a mente está demasiado débil para mentir a si mesma.”

Bertrand Editora

265 páginas


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